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a medida exacta

To do the useful thing, to say the courageous thing, to contemplate the beautiful thing: that is enough for one man’s life. T. S. Eliot, The Use of Poetry and the Use of Criticism, 1933. O presente e o passado talvez residam somente no calo da mão que cultiva. Não no gesto heróico das estátuas que descansam na praça, mas antes no fazer a coisa útil : o conserto do muro, a distribuição do pão, a precisão do artesão que ignora o aplauso das galerias, como se a utilidade fosse uma forma de oração sem palavras. Depois, há o peso do ar nos pulmões,  necessidade de dizer a coisa corajosa . Não o grito do demagogo ou a fúria do mercado, mas a palavra que corta a névoa, dita no momento em que o silêncio seria mais confortável. Uma verdade seca, como um osso ao sol, que não se dobra à conveniência das sombras. E, no fim do corredor pleno de ecos: c ontemplar a coisa bela. Não a beleza que distrai, mas a que detém o brilho da luz sobre o vidro quebrado, o padrão oculto no movimento das á...

o fundo da chávena

acordei tarde ou cedo demais dependendo  do lado esculpido                    da garrafa a cidade já estava  a tentar vender cedo o dia a cidade de dentes brancos opiniões recicladas em catálogos ambulantes de coisas que tentam ser compradas homens de gravata invisível  com cara de enterro mal pago empurram-se no metro  como se o inferno pagasse  o salário  uma mulher grita patética  ao telemóvel                         ninguém olha há regras a cumprir não se olha de frente para    o ridículo  dos outros a menos que dê lucro há quem acorde para correr  atrás do sucesso  e tropece na mesma pedra - o desespero de parecer interessante: publica frases que não entende   fotografa comida que não saboreia vive vidas que não lhes pertencem tudo para ganhar  u m like esse pequeno  orgasmo d ig...

cúmplices

A cobardia não grita em alvoroço, não fecha as portas com estrondo, não rasga o ar com botas. Senta-se. Espera. A cobardia veste roupa comum, tem mãos limpas, olhos baixos, e um silêncio muito bem educado. Dizem: Não é o momento . Dizem: Não fui eu . Dizem: Nada posso fazer . E assim se constrói um muro sem tijolos visíveis. Enquanto isso, alguém cai. E quem viu, ajusta o casaco, consulta o relógio, engole a palavra que poderia existir. A cobardia não precisa de armas. Basta-lhe o intervalo entre o que se sabe e o que se diz. Basta-lhe o pequeno acordo com o conforto, essa cadeira demasiado mole onde a consciência adormece. Mas há um detalhe incómodo: a cobardia nunca age sozinha. Multiplica-se em cada ombro encolhido, em cada riso deslocado, em cada porta que não se abre. E quando por fim perguntam: Quem deixou que isso acontecesse? a cobardia, discreta, abandona a sala.

autobiografia de ninguém

As pessoas queriam um perdedor que se tornasse um vencedor. Ou um vencedor que se tornasse um vencido. Mas um perdedor que continuasse a ser um perdedor? Isso era muito parecido com elas próprias. Não estavam interessadas em si mesmas. Charles Bukowski ficavam à espera de uma queda ou de um milagre como quem aposta num cavalo coxo ou num santo bêbado queriam a curva nunca a linha  recta um homem                        que subisse  com sangue nos dentes ou       descesse com estilo suficiente para ser citado mas não suportavam o tipo que ficava sentado no mesmo banco com o mesmo copo e a mesma história esse homem era perigoso o espectáculo                  mal iluminado não prometia  redenção                com digno  final   ninguém              ...

Grau 103⁰

Para Sylvia Plath A febre rasga-me em dois. Não há metáfora do corte Cada respiração um estilhaço,  cada gota de  suor uma confissão Sinto a carne soltar-se,  sem suavidade, e com pele arrancada a seco: a febre quer-me limpa,  quer-me branca,  quer-me vazia, quer-me sem nome O espelho rejeita a face, mostra-me a espada - uma lâmina piedosa Corta o supérfluo,  separa a luz - o exorcismo branco Há um ponto em que o calor se torna oração.  Ali, no centro do peito,  algo se abre - a ferida  aprende a cantar.  Ponto em que o calor se torna redenção   Ali, no centro do peito,  arde o que resta da culpa,  arde o que resta de mim Quando a febre finalmente cede, não volto a ser carne. Sou quase santa ou quase nada - um segredo sonoro regressa do próprio corpo. Cinza suspensa, o silêncio  a arder devagar - o nome que se escreve sozinho

a contrapartida secreta

O sentido é invisível mas o invisível não é contraditório do visível; o próprio visível tem uma organização interna invisível e o in-visível é a contrapartida secreta do visível. Merleau-Ponty , Working Notes (1959-1961) (dentro  do  que é  visto  entre  as vértebras                         de luz existe  uma ordem: cada traço nervo aresta guarda em si  a arquitectura das         sombras que moldam o real) visível é a margem & in-visível o rio que corre por baixo: o sentido não se vê m a s respira  não se deixa tocar pelas                        mãos        nem se oferece                  ao repouso do ol...

O Verbo Imóvel

Dizem-me: cresce. Como se fosse uma escada esquecida encostada  a uma parede. Como se dentro de mim houvesse degraus por inaugurar, como se a vida fosse uma sucessão de andares e eu, um inquilino atrasado. Mas não subo. Não desço. Não me desdobro em versões mais  aceitáveis de mim mesmo. Eu sou. É curioso, não é? Essa fome dos outros de me verem mudar. Tornar-me melhor, maior, mais qualquer coisa. Como se o presente fosse um rascunho e o futuro, essa promessa mal iluminada, o único lugar onde finalmente justificaria  a minha existência. Mas não sou um projecto. Não sou uma obra em andamento com andaimes  emocionais. Não há fita de inauguração no meu peito. Eu sou. Ser.. é  um verbo pesado, não porque exija esforço, mas porque recusa movimento. Ser não pede aplauso, não pede direcção. não pede sequer compreensão. Ser é esse instante bruto, sem antes nem depois, sem currículo, sem meta. E talvez seja isso que os inquieta. O meu desinteresse em...

cicatriz

Descobrimos sempre o nosso mistério à custa da nossa inocência . (Robertson Davies, Fifth  Business, 1970) repito: descobrimos sempre o nosso mistério à custa da nossa inocência (e nem percebemos quando o primeiro rasgo abre o mundo ao meio) éramos inteiros antes da pergunta depois fomos isto - fragmento que pensa que saber é luz - mas a luz tem dentes e mastiga devagar o espanto cada resposta pouco menor que o céu pouco maior que o chão e crescemos assim caindo para dentro de nós até que um dia o mistério já não é descoberta mas a cicatriz que aprende a dizer eu

vertigem

Para Walt Whitman  Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas.  Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto. Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas...

o caderno escuro

Para Nika Turbina não sou eu,     dizes - quem escreve,          como se a mão fosse              um rumor do corpo,  o abismo apressado não sou eu,     dizes -       quem escuta,              o ouvido no pulso,  o verso  sem nome no caderno escuro não sou eu,     dizes -    quem faz       tremer os sonhos onde o chão líquido                    aprende  a cair  acordas - a noite intacta,      pesada, um animal deitado sobre    o peito Gritar? O grito esqueceu-            se    de ti    dizes - não há palavras  e logo depois há - mas quem encontra   letras num quarto submerso?                  e então es...

o vidro fino

No hables a menos que puedas mejorar el silencio. Jorge Luis Borges E o silêncio ergue-se como uma catedral  sem tecto,  uma arquitetura de ar onde  cada ausência respira.  Há nele um rumor  de mar antes da maré,  um quase dizer que  não se entrega.  As palavras chegam demasiado  vestidas,  calçam sapatos sobre o chão sagrado, tropeçam na pureza do instante,  deixam  migalhas  de intenção por onde passam. Falar é um risco calculado: tocar o vidro fino do mundo sem quebrar a sua transparência. Mas quem ousa medir o peso do silêncio que se deita entre dois pensamentos como um animal antigo que observa? Se disseres algo, que seja como água numa pedra quente: um gesto inevitável.

a deusa

ela não chega, condensa-se      nenhum passo, nenhuma heráldica, apenas a lenta insistência da maré contra o crânio      a palidez acumula-se à beira do pensamento, onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos      sente-a primeiro a subtracção: calor rarefeito, cor drenada, nomes escorregando como peixes  da  rede               para a boca depois começa a aritmética prateada: cresce, diminui, desaparece, regressa ela guarda a sua biblioteca na medula        cada mito uma vértebra,  cada amante    um fóssil de devoção  impresso na longa  paciência do seu corpo  os homens chamaram-lhe misericórdia  os homens chamaram-lhe perecimento       construíram altares a partir dos    seus erros, nomearam  esses ecos  uma  epifania mas ela não é dádiva nem fim   ela é a gramática da recorrência, a si...

mineral

Para Ruy Belo Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga, despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação. Ser apenas a substância que ao mundo se liga, sem peso de fôlego, mas com a força do chão. Minha suprema ambição é o repouso do granito, impassível presença que o tempo não consome, trocar esse grito humano, frágil e aflito, pela paz de quem não precisa de nome. Não volto à terra por castigo ou sorte adversa, mas pelo desejo que em mim longo se fez: ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera, passar a ser a voz da terra , de uma só vez. Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva e minha voz se funda em seu eco profundo, então serei mais do que alguma vez pude dizer, serei a própria voz que alimenta o mundo. Mais do que o verso escrito ou a fala passageira, vale a verdade do barro, a firmeza do cristal: a minha palavra final será poeira, a glória de ser, enfim, apenas mineral.

genialidade

I met a genius on the train today about 6 years old, he sat beside me and as the train ran down along the coast we came to the ocean and then he looked at me and said, it's not pretty. it was the first time I'd realized that. Charles Bukowski  A besta de metal seguia em frente, um tremor familiar contra as solas dos meus sapatos gastos. A luz do sol, um amarelo barato, invadia o assento de vinil. E depois, a pequena interrupção. Presença silenciosa, uma súbita constelação de curiosidade ao meu lado. Seis anos, talvez, a sua idade, olhos que contemplavam a vastidão de um futuro ainda não escrito. Movemo-nos. A paisagem ficou turva, um borrão verde dando lugar ao hálito salgado e cortante da proximidade. E o oceano chegou. Não uma revelação súbita, mas um desenrolar lento e azul, quilómetro após quilómetro, o ritmo incansável da maré em conflito com a areia. Já o vira inúmeras vezes. Um cenário de postal ilustrado. Um silêncio azul. Algo a ser admirado, por dever. Também o obser...

a fala

A cada forma natural, rocha, fruto ou flor, Até mesmo às pedras soltas que cobrem a estrada, Dei uma vida moral: vi-as sentir, Ou liguei-as a algum sentimento: o grande todo Repousava numa alma que se alentava, e tudo Que contemplava respirava um sentido interior . William  Wordsworth, The  Prelude, 1850, Book III, 130-135 Não foi por capricho, mas porque o silêncio da terra parecia demasiado cheio para ser silêncio. Vi as pedras sentir a lassidão da montanha, como se ainda recordassem o peso das eras e a lenta queda do tempo. Nos frutos percebi uma paciência redonda, uma espera madura pelo instante exacto da queda. E as flores, frágeis pensamentos recém-nascidos, respiravam um segredo que o vento repetia. Assim liguei cada coisa a um fio de sentimento - não humano, talvez, mas irmão do que somos. E tudo o que observo - a poeira, o musgo, o caminho irregular - respira comigo  uma fala oculta. Como se o mundo inteiro falasse baixo para quem...

aplauso

POETA, não terás o aplauso popular! O louvor do êxtase passará a ruído momentâneo; O julgamento do tolo ouvirás, e o riso da fria multidão - Permanece calmo, firme, e — sóbrio! Alexander Pushkin, Poems , 1817 O poeta caminha lentamente até a boca do cena. Na mão direita, empunha um estilete como se fosse uma arma branca pronta a atacar. E inicia o seu monólogo:  Então, esperavas o quê? Flores? O estrondo de mil mãos batendo em uníssono até que os teus ouvidos sangrassem de glória? Esquece. Não haverá o aplauso popular. Entende de uma vez: a multidão é um monstro de mil cabeças que adora ser alimentado, mas nunca se sacia de ti. O que tu chamas de louvor, de êxtase... ah, isso é somente uma nuvem de fumaça. É o ruído momentâneo de uma engrenagem que te tritura e te cospe em seguida. Escuta... consegues ouvir? É o riso deles. Esse frio que corta a pele. O julgamento do tolo é uma sentença proferida antes mesmo de o teu verso tocar o chão. Riem porque não compreendem o peso d...

os deuses

A noite ergue-se como uma lona velha  esticada sobre um mundo cansado. As estrelas torcem-se no alto, espirais  de luz numa imensa tenda que alguém  desenhou para vigiar os  que sonham. Porque ficam os deuses lá fora? Porque não atravessam a cortina como quem aceita o risco de ser apenas mais um na plateia? Será a pobreza da eternidade? Ou o truque de quem prefere observar sem pagar o preço da surpresa? Ou talvez temam  que lhes pintemos o rosto, lhes demos sapatos bicudos e gargalhadas demasiado humanas. Mas, se isso acontecesse, não era assim tão estranho -  os palhaços governaram desde sempre o circo. Então que desçam, que entrem sem pagar nem permissão. Aqui ninguém lhes pedirá contas. Só lhes pedimos uma coisa: não fiquem lá em cima a espreitar. Há números delicados em cena e os equilibristas caem  ao saber que são observados das estrelas. 

pontuação final

Para Laura Riding ​ A morte, que parece um simples verso , não exige métrica nem ensaio nem fôlego. É a gramática que se aprende sem esforço quando as mãos se cansam do mundo. ​ E, de todos os modos do saber , a única ciência que não exige estudo. Não há bibliotecas para o pó, nem teses sobre o vazio de um corpo - o exercício  de desaprender dos nomes e das cores. ​ Morto ou vivo, o mais fácil .    Viver é um ofício de esforço: o equilibrista tenso na corda do tempo, a des(re)construção diária de um rosto. A morte, que parece um simples verso é o instante em que a pontuação final se transforma em toda a frase escrita: a facilidade de ser apenas o que se é.

sabor

Para Frank O'Hara Merda na sopa, deixa-a queimar. Tudo está de volta. Nunca estarás mentalmente sóbrio. E talvez seja melhor assim. Porque a panela ferve mesmo quando ninguém está na cozinha, e o cheiro - meio carvão, meio memória - sobe pelas paredes como uma notícia que ninguém leu. Lembras-te de quando as manhãs eram apenas café e uma janela aberta? Agora há sempre qualquer coisa a arder no fundo do dia. Merda na sopa , sim - um erro, um gesto brusco, uma colher esquecida a rodar como um planeta pequeno no caldo do mundo. Tudo está de volta : a rua molhada, os nomes que disseste depressa demais, o riso de alguém numa mesa onde já não te sentas. E a cabeça, essa panela impossível, nunca desliga o lume. Nunca estarás mentalmente sóbrio . Há sempre um pensamento a fermentar, uma palavra atravessada, uma lembrança a borbulhar até saltar pela borda. Deixa a sopa queimar um pouco. Às vezes é o fundo escuro que tem realmente  sabor.

o navio de vidro

​ Para Claudia Emerson A memória é um gargalo estreito, um caminho de terra que termina  onde o sal começa. Quando era pequena , o mundo tinha  a segurança das coisas sólidas, até ao dia em que o carro parou diante do impensável. ​ Conduzimos apenas uma vez até ao oceano , uma incursão única num território  sem mapa. Imóvel no banco de trás, a criança  ​tinha medo desse tipo de água , não  a que se deixa medir por garrafas mas dessa massa azul - músculo  que se move s em intenção,  sem perdão,  ocupando o vácuo. O mar não era uma paisagem. Era uma anatomia que não conseguia nomear. ​E havia o peso desse horizonte , uma linha cortante que não prometia  nada além de si mesma. Um abismo horizontal que tentava fechar dentro do olhar como quem  tenta f orçar um navio de velas  abertas a entrar dentro                             de uma garrafa. ​O med...

recibo

supõem que me estão a inventar? um homem num quarto barato com o gosto metálico da noite supõem que me olho  no espelho?            O tipo que lá está  parece ter  perdido as suas guerras embora não se lembre - o café é fraco e lá fora passam carros buzinando  memórias como se soubessem  onde vão - o que é suspeito  (acendo um cigarro  imaginário os reais acabaram ontem  junto com  algumas  certezas  que fingia ter) supõem que me estão a inventar? a comédia alternativa seria  admitir  que o trabalho sério os bares  a mulher  desejável  tudo já  havia sido reescrito  num  guardanapo  amarrotado em algum bar onde o universo bebe                                  sozinho então invento mais um dia  mais  uma versão            ...

corpos escritos

Fazer amor em poesia não é deixar a marca de rimas  num lençol branco  ou procurar a metáfora perfeita para o teu flanco.  É um acto de desobediência contra o silêncio. É tirar a roupa das palavras até que elas fiquem nuas, trémulas, sem o casaco pesado dos dicionários ou a gravata apertada da sintaxe. É ler a tua pele como se fosse um manuscrito  descoberto numa cave  cheirando a café, jazz  e revolução  onde cada curva do teu corpo é um verso que o censor se esqueceu de apagar. Não precisamos de gramática para este momento. A nossa pontuação é o fôlego curto: um ponto final no umbigo, reticências que descem pelas vértebras, um ponto de exclamação no encontro das bocas. Estamos a imprimir uma edição clandestina de nós próprios, sem editores, sem revisores, sem medo de que o mundo lá fora não entenda a nossa métrica selvagem. Porque, no fim, meu amor, a melhor poesia não se lê com os olhos: escreve-se com o peso do corpo.

Autobiografia

  Para Dorothy Parker Oh, both my shoes are shiny new,      And pristine is my hat; My dress is 1922. . . .     My life is all like that. ( Autobiography from Enough Rope , 1926) Oh, os meus novos sapatos brilham, como promessas recém-nascidas vernizes ainda intactos reflectindo um mundo que mal me reconhece E antigo é o meu chapéu; traz na aba o pó de estações vividas a sombra de pegadas de outras ruas O meu vestido é de 1922… cheira ao riso das festas antigas música de gramofone invisível eco de vozes que risos silenciam A minha vida inteira é assim. um brilho incerto começa nos pés uma memória faz ninho na cabeça

Ode à Desobediência

Para Álvaro de Campos  À vontade de ser tudo e o nada que me dão, Às ordens vindas de baixo, de cima, de lado, Respondo com o estalido seco da minha própria negação! Desobediência é coerência, ouvi dizer, E que frase tão certa para quem tem o universo a arder no peito E um relógio de pulso a marcar as horas de um tédio infinito. Sinto-me um motor gripado no meio da multidão ordenada! Todos caminham para o emprego, para a ceia, para a morte previsível, E eu, que sou um amontoado de sensações contraditórias, Desobedeço à linha recta porque o meu destino é o desvio! Sim, sou coerente com a minha própria incoerência, Com esta inquietação que é a única coisa real que possuo. Mandam-me ser útil? Eu sou inútil como uma estrela ao meio-dia! Mandam-me ser prático? Eu perco-me a contar as manchas de óleo no Tejo! Toda a gente aceita o contrato, a submissão, a etiqueta, Mas eu, Álvaro de Campos, engenheiro de nenhures, Saúdo a revolta de não querer ser nada do que me é imposto...

trilha

  Em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: ela continua. Robert Frost a vida passa - caminho dividido na floresta quando o outono começa a dourar as folhas e ninguém garante que a trilha guarda menos pedras aprendi que a vida não anuncia que passo fará a diferença apenas oferece duas direcções e o silêncio entre elas o vento inclina os galhos a luz atravessa a floresta em lâminas finas há sempre uma simples cerca a separar o terreno familiar do desconhecido em três palavras posso resumir tudo o que aprendi sobre a vida: escolhe e caminha não porque o caminho seja claro mas porque ficar parado é uma escolha e a tarde não espera quando a noite vier direi que tomei a trilha certa ou que apenas tomei uma trilha - e foi quanto baste

os dinossauros

os dinossauros não vieram com escamas vieram de camisa aberta e gravata barata acordam às seis  cagam às seis e quinze apanham o metro às seis e quarenta há café queimado há chefes piores há espelhos que sempre mentem melhor do que qualquer amante os dinossauros usam cartões de crédito sorriem quando querem esmurrar alguém aprendem que a oportunidade significa trabalhar até a coluna esvair-se em pó as mulheres bebem whisky barato os homens fingem entender de política todos fingem não terem medo de morrer exactamente igual ao vizinho os jornais vendem o medo em promoção as igrejas vendem a palavra eternidade os bares vendem o nirvana do instante alguém olha para as contas da casa verificando que não foi um asteróide que matou os dinossauros e grita: - "Não se paga! Não se paga!" foi o login no trabalho  foi a prestação do carro foi a prestação da casa foi a esperança  que morreu  devagar no apartamento  com vista para outro apartamento e amanhã ...

o poema

Homenagem a Cummings o poema ​v    a        I ​(c a i n d o) ​silenciosa mente (sílaba a sílaba)no mundo da cor ​ se o vento(esse velho impostor)soprar segredos na BOCA das árvores ​ estaremos (rindo) n o  ou  tro  la  do do mundo ​com mãoscheias de nada &nenhum ponto final

a regra d'ouro

Primeiro, declara-se a guerra. Não em voz alta - em reuniões discretas, com café quente e gráficos claros. Depois, explica-se ao povo que é pelo bem comum. O bem, claro,  já está definido por investidores & accionistas. Os pobres oferecem os corpos, os ricos oferecem opiniões. Uns perdem pernas, outros ganham contratos. A bomba cai democraticamente, mas a conta sobe em exclusivo. Há quem morra anónimo, há quem assine em dourado. Chamam “sacrifício” ao que jamais sacrificariam. Chamam "defesa" ou "ataque preventivo"  quando iniciam ofensiva. Chamam “inevitável”  a tudo o que é lucrativo. Quando tudo arde, aparecem salvadores com capacete novo e facturas antigas. Reconstrói-se o país, não a justiça. Enterram-se os mortos, não os responsáveis. E no fim, se alguém perguntar “porquê?”, responde-se com seriedade: - porque funciona.

eclipse

  Para Edmond Jabès O eclipse não dramatiza a sombra: observa-a  a trabalhar. O escuro não vem como punição, mas como forma provisória de leitura. A mão que cobre o rosto inaugura um saber antigo: ver menos para ver melhor. O divino como um livro ilegível de tanto ter sido tocado pelo fogo. O eclipse é isso: um acordo silencioso para que o instante por um segundo exacto saiba que é dono de si. Escrever torna-se navegação às cegas, registo do abalo, e não da rota. Entre partida e regresso, o poema aceita a sua condição de bordo instável. Nada se fixa, tudo se anota. Todo o livro é um livro de bordo . Toda a leitura, uma travessia. E quando se fecha o rosto com a mão, não é sombra: é o eclipse a ensaiar, em nós, a sua lenta, perfeita caligrafia.

poesia

Para Marianne Moore A mim também não me agrada - disse, com a franqueza de quem não pede licença à reverência. A poesia começa aí: nesse ligeiro encolher de ombros, no desajuste entre expectativa e respiração. Lemo-la com perfeito desprezo - como quem entra num quarto apenas para confirmar que nada ali lhe pertence. E, no entanto, algo insiste: entre sílabas mal iluminadas, entre uma imagem que falha e outra que se repete, descobre-se afinal um lugar para o genuíno . Não o genuíno polido, nem o que sabe posar para retrato, mas esse que tropeça, que fala baixo, que chega atrasado à própria frase, sabendo que a poesia não promete  conforto, entrega restos: ossos limpos de emoção fácil, ritmos que não pedem aplauso, palavras sem vocação para slogan. E aí,  no atrito entre desprezo e atenção, algo respira: uma coisa pequena, obstinada, indiferente ao gosto, imune à moda. Chamamos-lhe poesia por falta de melhor nome, mas ela prefere existir como alguém que n...

Anjo

“Todo o Anjo é terrível”, disse, e eu acrescento: tão terrível que aprisiona ao Lugar. António Barahona Não ao lugar geográfico - não à rua, nem à casa, nem ao nome da cidade - mas a esse ponto fixo onde a alma fica suspensa como um prego de luz. O anjo não empurra: detém. Não fere: imobiliza com claridade excessiva. Terrível porque mostra a forma exacta do nosso medo, o contorno nítido do desejo, a pergunta sem portas. Onde o anjo passa, o tempo perde mobilidade como quem foi visto por dentro. O Lugar é esse: o sítio onde já não somos metáfora, onde a linguagem deixa de proteger, onde o silêncio tem peso específico. Por isso trememos. Não porque o anjo venha do alto, mas porque nos fixa - como um espelho que decide lembrar-se de nós. E assim permanecemos: O anjo não fecha a porta. Aprende connosco a falha. Aprisiona ao Lugar como quem ensina a respirar dentro  da pedra, como quem diz: fica - não para obedecer, mas para escutar o que ainda falha o no...

chama

Para Al Berto Se conseguires entrar em casa e o ar tiver a espessura do presságio, não recues. A porta pode ranger como se abrisse a boca de um século, e ainda assim — entra. Talvez alguém esteja em fogo na tua cama . Não um corpo a arder, mas uma memória acesa, uma figura feita de brasas antigas, ardendo sem consumir os lençóis. O incêndio não é destruição: é visita. A madeira do soalho começará a brilhar como cera derretida, e na sua superfície verás desenhar-se a sombra de uma cidade que nunca habitaste. Ruas que não pisaste, varandas onde ninguém te chamou pelo nome - e, no entanto, tudo te pertence. Do tecto cairá uma chuva miudinha, contínua, cintilante, como se as estrelas tivessem escolhido a tua sala para desabar em silêncio. Não te assustes. Há clarões que não queimam; apenas iluminam o que estava esquecido. São os teus antepassados . Levantaram-se por um instante da longa inércia dos séculos , sacudindo o pó do tempo como quem ajeita um casaco antigo. Vêm sem passos, vêm...

pássaro

Para José Gomes Ferreira Nunca encontrei um pássaro morto na floresta . Caminhei como quem procura uma prova — não da morte, mas do seu peso. A manhã abria-se húmida, com aquele silêncio verde que parece respirar antes de nós. Afastei ramos, inclinei-me sobre musgos, espiei entre raízes que guardam segredos com a paciência dos séculos. Em vão . Nem uma pena desordenada, nem um corpo mínimo entregue à gravidade. A floresta devolvia-me apenas o rumor das folhas, como se dissesse: aqui nada termina, tudo começa. Procurei um cadáver pequenino que desse o sangue às flores , que ensinasse às pétalas o verbo vermelho. Imaginei as asas desfeitas, ofertadas às folhas secas como mapas de um voo interrompido. Mas as flores mantinham o seu rubor intacto, as folhas continuavam a cair por conta própria, sem empréstimos do céu. Talvez a morte, ali, seja uma invenção humana — um hábito de medir ausências. Houve um momento em que parei. O sol atravessava as copas como uma água dourada, e percebi q...

vício

A poesia é uma droga barata, das que se enrolam num guardanapo manchado de tinta & letras  que esperam por ti na mesa gordurosa de um café  há décadas. Entras sóbrio. sais com palavras a tropeçar-te  nos dentes. Foi o que me aconteceu numa noite qualquer depois do terceiro verso (ou do quarto - a matemática nunca foi grande coisa quando a solidão começa a falar alto). li duas linhas do poema e pensei: isto é somente sujidade  organizada. mas não era. era uma agulha invisível a furar-me o silêncio. desde então a poesia mete-se comigo como uma amante que não paga  a renda  e nunca sai do quarto. acordo com frases ressacadas, durmo com metáforas por lavar. o frigorífico está vazio mas o caderno está cheio - e isso não paga                       as contas da casa. dizem que é vício. dizem que é fuga. dizem que devia arranjar  um trabalho a sério. já tentei. mas nenhuma ...

peça a peça

Dizem-nos: das trevas fez-se luz. E houve uma manhã - talvez.   Mas a manhã não nos pertenceu.       Falaram-nos de uma luz inteira, como se a inteireza fosse possível num século de espelhos rachados. Assim pensámos. Assim nos ensinaram a pensar    entre anúncios luminosos e ruínas de ossos discretos. Mas quando a luz nasceu (se nasceu:  fragmentou-se): não em constelações sublimes,        mas em lâmpadas de tecto   de corredores administrativos. Basta olhar para o céu:  as trevas   continuam.  Não como ausência, mas como afirmação do método. Medem a dança das luzes com a paciência mineral das eras. (outrora chamámos a isso destino). Outrora como agora, marionetas  no  carrossel do jogo.  A música é alegre  ( convém que seja): quem dança não pergunta           qual personagem roda a manivela.    Agora chamamos equilíbrio instável ao copo ...

trovão

Para Emily Dickinson They shut me up in Prose – como quem fecha a janela para que o vento não desarrume as gavetas do mundo deram-me uma cadeira direita um nome alinhado um dia útil e disseram: respira baixo They shut me up in Prose – como se a alma fosse um pássaro inconveniente a bater asas na biblioteca mediram-me o pulso com régua escolar ensinaram-me a caligrafia  do sossego a gramática da cerca mas o pensamento - esse visitante clandestino  saltava muros invisíveis e escrevia nos intervalos quando eu era ainda uma sílaba indomada um relâmpago a aprender o seu próprio clarão They shut me up in Prose – disseram que a lucidez usa sapatos discretos e não voa nos telhados da infância ah, mas dentro do crânio uma abelha insistia no mel das perguntas e cada palavra que me cosiam à boca abria-se por dentro como uma flor subterrânea They shut me up in Prose – e eu respondi com versos que não cabiam no envelope habitual porque há quem pense que o...

silêncio

Hark! No whisper mars The utter silence of the untranslated stars. (e. e. Cummings in Summer Silence , 1913) ninguém (salvo quase) escuta como o nada se inclina porque o mundo é pequeno demais para tanto silêncio e grande demais para caber numa frase eu que sou apenas ninguém com os dedos que escrevem aprendi isto: que as estrelas não existem existem-se               introduzindo o silêncio                     absoluto dentro do silêncio (assim como tu entras em mim sem som) escuta: o universo desaprende o ruído escuta! nenhum rumor abisma o silêncio absoluto das intraduzíveis estrelas                          e o coração - essa frágil pontuação               sem precisão  vai batendo            ...

os objectos

os objectos erguem-se - parentes distantes com mãos de vidro - aproximam-se de nós com a delicadeza de quem aprendeu a nossa linguagem escutando atrás das paredes, atrás do sangue, e dão à luz o espanto directamente na concha da boca. competem entre si pela primazia da nossa solidão: a chávena reclama o primeiro frio, a cadeira o peso das nossas perguntas, o relógio o nervo impaciente de sermos ainda matéria. são criaturas modestas,  nunca exigem  a voracidade de estar vivo, contentam-se com a exactidão do pó, com a honra quase vegetal de permanecer. únicos, dizem,  fora e dentro de nós, como se tivéssemos dois corpos e um fosse feito de chaves que não abrem coisa alguma. não interrogam a própria existência, não levantam assembleias de culpa, e no entanto vigiam-nos com a paciência de uma mãe que sabe o nome secreto do filho. ignoram que são,  em si mesmos, a nossa mesma consciência: pequenos espelhos práticos onde a alma vem experimenta...

susto

Aos amantes que esperam como quem mexe o café  com uma estrela anã que tarda em morrer. digo baixinho que as janelas vedadas têm orifícios do tamanho do nosso medo e por eles passa um cavalo feito de horas perdemos nomes ganhamos ferrugem e um relógio ri-se com dentes de ouro há feitiços falidos - sim pendurados como casacos cansados promessas com letras a coxear pelo passeio serpentino da língua e a solidão veste um fato largo o desejo fuma à porta do cinema à porta selada de jogo clandestino a sorte penteia o cabelo ao contrário onde há uma bela ginástica de ossos não procurem a noite como quem procura um interruptor  a noite é um gato eriçado um erro de ortografia  um bolso sem fundo fiquemos com a lição de aprender a cair para cima a escrever o mundo sem levantar o lápis do susto

solução da noite

Aos amigos que esperam encontrar-na solução da noite  como quem procura moedas debaixo da língua elétrica da cidade,  digo-vos: o sulfato dos dias é um cão a morder a própria sombra, e nós atiramos-lhe ossos chamados segunda-feira, chamados salário, chamados paciência com desconto. nas janelas vedadas respiram insectos burocráticos, orifícios por onde espreita o olho cansado dos impérios, e nos cruzamentos do tempo e do lugar,  um polícia  invisível multa-nos o coração por excesso de sonho. vi feitiços falidos a boiar no Tejo de plástico, promessas em MAIÚSCULAS a vender aspiradores metafísicos,  letras tortas,  colunas de um templo bêbado onde os profetas  dormem com a boca cheia de recibos. digo-vos, ó amigos de todos os tempos, a solidão tem um megafone rachado o desejo toca saxofone nas costelas da noite, no salão de jogo a esperança perde os sapatos enquanto revólveres jogam à roleta russa. há sempre uma forma de dizer não vestida a r...

devoção

Para Sylvia Plath lâmina doméstica  a arder por dentro. O pássaro precisa de aprender a voar como quem aprende a usar uma faca na cozinha demasiado branca da manhã. Tudo brilha com dentes: o copo, o relógio, a boca da mãe. Nasceu com um coração de relógio partido, tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas. Dizem-lhe: tenta outra vez, o céu é um prato limpo. Mas o céu tem nódoas que não saem. Treina no quintal das coisas úteis: o balde, a corda, a camisa a secar como um fantasma dócil. Cada impulso é uma carta sem selo endereçada a um deus com auscultadores. O pássaro precisa de aprender a voar e o mundo oferece manuais de boas maneiras: não grites, não sangres, sorri com a boca fechada como as bonecas que sabem morrer. Debaixo das penas mora uma casa em chamas. As paredes perguntam pelo jantar, o espelho penteia-lhe o medo com dedos de enfermeira cansada. Há sempre alguém a medir-lhe a sombra. Então cresce um centímetro - o bastante para ouvir os si...

idiotamente

Esse jovem, já me informei,  é um caso muito difícil - disse a voz com hálito de café queimado por detrás do biombo. Um biombo: há sempre um biombo quando a cobardia decide  tirar uma licenciatura. Fiquei a interrogar-me sobre a sábia natureza de quem prevê futuros como quem aposta em cavalos coxos sem abandonar a cadeira. Profetas de secretária xadrezistas de peças  invisíveis, exercício  de pequenos poderes. Joguinhos, claro. De adultos mal resolvidos que nunca aprenderam  a perder n em a calar. Já não gasto saliva. A saliva é cara e os idiotas são uma raça abundante. Concluí:  um idiota. é mais um idiota a rodar alegremente no carrossel da idiotice, bilhete vitalício, música alta para não ouvir o protesto do  neurónio vazio. E lá vai ele, mais uma voltinha, mão no acelerador, olhos fechados, convencido de que manda no mundo porque controla a velocidade do vazio. Eu? Desci do carrossel. viajo sem bilhete, não falo atr...

os lusíadas

Lucros cantam melhor que as musas ou o evangelho segundo o lucro.  no princípio não estavam as gentes. estava o lucro. e o lucro viu o nome os lusíadas e disse: isto é bom para vender. camões não escreveu um livro. escreveu um rótulo antes do tempo. para que um tipo de fato branco charuto apagado nos lábios e um sorriso de contabilista pegasse no título e o pendurasse numa fábrica de enchidos. o erro dele foi pensar em homens. o acerto deles foi pensar em números. as gentes dão problemas: faltam, reclamam, morrem. o lucro não. o lucro não falta, não morre, não pergunta de onde vem a carne. há uma linha de produção onde o verso entra inteiro e sai moído. não sobra metáfora, só enchido de porco. as musas? de avental manchado enquanto a carne passa pela máquina como a pátria passa pela história: triturada, temperada, embalada no vácuo. camões, querias cantar homens maiores que o medo deram-te homens menores que o lucro. o épico agora vem fati...

o pó nos sapatos

Para Hilda Hilst que as palavras te acompanhem mesmo quando fingem silêncio.    Homens do nosso tempo não vos escrevo para embalar o sono. Escrevo com a luz acesa e a porta aberta - quem entra, assuma o pó nos sapatos. Falais de progresso, a boca cheia de estatísticas. Mas no prato há sempre o mesmo osso e alguém fica a roer o silêncio. Aprendestes a dizer  ordem como quem diz  amanhã . Uma palavra limpa, lavada em gabinetes, enquanto na rua se aprende a gramática da fome. Não vos falo de amor como quem vende perfumes. Amor aqui é um método rude: olhar de frente para o outro sem desviar os olhos. Homens do nosso tempo , construireis máquinas sencientes, mas haveis pedido aos homens que desaprendessem de sentir. Chamastes eficiência à pressa de esmagar perguntas. A poesia, dizeis, não serve. Serve pouco, muito pouco. Como uma lâmpada mal pendurada numa sala de interrogatórios: não resolve o caso, mas impede a escuridão completa. Sei bem: preferis versos obedientes, do...