o navio de vidro
Para Claudia Emerson
A memória é um gargalo estreito,
um caminho de terra que termina
onde o sal começa.
Quando era pequena, o mundo tinha
a segurança das coisas sólidas,
até ao dia em que o carro parou diante
Imóvel no banco de trás, a criança
tinha medo desse tipo de água, não
a que se deixa medir por garrafas
mas dessa massa azul - músculo
O mar não era uma paisagem.
Era uma anatomia
que não conseguia nomear.
E havia o peso desse horizonte,
uma linha cortante que não prometia
Um abismo horizontal que tentava
fechar dentro do olhar como quem
até ao dia em que o carro parou diante
do impensável.
Conduzimos apenas uma vez até ao oceano,
uma incursão única num território
Conduzimos apenas uma vez até ao oceano,
uma incursão única num território
sem mapa.
Imóvel no banco de trás, a criança
tinha medo desse tipo de água, não
a que se deixa medir por garrafas
mas dessa massa azul - músculo
que se move sem intenção,
sem perdão, ocupando o vácuo.
O mar não era uma paisagem.
Era uma anatomia
que não conseguia nomear.
E havia o peso desse horizonte,
uma linha cortante que não prometia
nada além de si mesma.
Um abismo horizontal que tentava
fechar dentro do olhar como quem
tenta forçar um navio de velas
abertas a entrar dentro
de uma garrafa.
O medo era esse: a impossibilidade da escala.
Regressou a casa levando
O medo era esse: a impossibilidade da escala.
Regressou a casa levando
o oceano nos olhos -
coisa vasta e perigosa para ser pensada.