chama

Para Al Berto



Se conseguires entrar em casa e o ar tiver a espessura do presságio, não recues. A porta pode ranger como se abrisse a boca de um século, e ainda assim — entra. Talvez alguém esteja em fogo na tua cama. Não um corpo a arder, mas uma memória acesa, uma figura feita de brasas antigas, ardendo sem consumir os lençóis. O incêndio não é destruição: é visita.

A madeira do soalho começará a brilhar como cera derretida, e na sua superfície verás desenhar-se a sombra de uma cidade que nunca habitaste. Ruas que não pisaste, varandas onde ninguém te chamou pelo nome - e, no entanto, tudo te pertence. Do tecto cairá uma chuva miudinha, contínua, cintilante, como se as estrelas tivessem escolhido a tua sala para desabar em silêncio. Não te assustes. Há clarões que não queimam; apenas iluminam o que estava esquecido.

São os teus antepassados. Levantaram-se por um instante da longa inércia dos séculos, sacudindo o pó do tempo como quem ajeita um casaco antigo. Vêm sem passos, vêm sem idade. Trazem nos olhos a mesma chama que agora arde na tua cama. Não pedem nada - apenas ocupam o espaço como uma respiração mais funda.

Fala-lhes. Diz-lhes que vives junto ao mar 
onde zarpam navios carregados com medos 
do fim do mundo. 

Conta-lhes que as águas continuam inquietas, que os portos ainda conhecem despedidas, que há incêndios que não se veem mas consomem a morada de uma vida inteira. Diz-lhes que aprendeste a sobreviver às cinzas, mesmo quando o nome da casa se perdeu na fuligem.

Eles escutarão com a paciência ancestral de quem já foi terra e vento. Talvez sorriam - não com lábios, mas com a vibração quase imperceptível do ar. E quando lhes pedires que murmurem uma última canção para os olhos, o fogo abrandará. A chuva brilhante cessará. A cidade dissolver-se-á no soalho como um desenho feito de luz.

Então deita-te no chão, ao seu lado. Não chores. Há incêndios que purificam o excesso de passado, há visitas que não deixam ruínas. Adormece com essa claridade antiga pousada sobre o teu peito. Porque, às vezes, o que arde não é a casa — é o esquecimento. E nessa noite, pelo breve espaço de uma chama, já não haverá boca capaz de jurar que habita o deserto.

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