vício

A poesia é uma droga barata,
das que se enrolam num guardanapo
manchado de tinta & letras 
que esperam por ti
na mesa gordurosa de um café 
há décadas.

Entras sóbrio.
sais com palavras a tropeçar-te 
nos dentes.

Foi o que me aconteceu
numa noite qualquer
depois do terceiro verso
(ou do quarto -
a matemática nunca foi grande coisa
quando a solidão começa a falar alto).

li duas linhas do poema
e pensei:
isto é somente sujidade 
organizada.

mas não era.

era uma agulha invisível
a furar-me o silêncio.

desde então
a poesia mete-se comigo
como uma amante que não paga 
a renda e nunca sai do quarto.

acordo com frases ressacadas,
durmo com metáforas por lavar.
o frigorífico está vazio
mas o caderno está cheio -
e isso não paga
                      as contas da casa.

dizem que é vício.
dizem que é fuga.
dizem que devia arranjar 
um trabalho a sério.

já tentei.
mas nenhuma folha de cálculo
me deu a mesma vertigem
que um verso mal alinhado
a respirar sozinho na página.

a poesia é uma droga
que não promete salários.
só te oferece
um espelho embaciado
e diz:
faz de ti o olhar que vê.

às vezes dói.
às vezes salva.

e quase sempre
nunca é.

há vícios piores
do que sentir 
demais.

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