os lusíadas
Lucros cantam melhor que as musas
ou o evangelho segundo o lucro.
no princípio
não estavam as gentes.
estava o lucro.
e o lucro viu o nome
os lusíadas
e disse:
isto é bom para vender.
não estavam as gentes.
estava o lucro.
e o lucro viu o nome
os lusíadas
e disse:
isto é bom para vender.
camões não escreveu um livro.
escreveu um rótulo
antes do tempo.
escreveu um rótulo
antes do tempo.
para que um tipo de fato branco
charuto apagado nos lábios
e um sorriso de contabilista
pegasse no título
e o pendurasse
numa fábrica de enchidos.
o erro dele
foi pensar em homens.
o acerto deles
foi pensar em números.
as gentes dão problemas:
faltam,
reclamam,
morrem.
o lucro não.
o lucro não falta,
não morre,
não pergunta
de onde vem a carne.
há uma linha de produção
onde o verso entra inteiro
e sai moído.
não sobra metáfora,
só enchido de porco.
as musas?
de avental manchado
enquanto a carne passa
pela máquina
como a pátria passa
pela história:
triturada, temperada,
embalada no vácuo.
camões,
querias cantar homens
maiores que o medo
deram-te homens
menores que o lucro.
o épico agora vem fatiado,
vende-se ao quilo,
tem selo de qualidade
e prazo de validade.
heróis não rendem.
o nome rende sempre.
e ninguém cora.
o lucro não tem vergonha.
aprendeu cedo.
a cultura é agora
matéria-prima.
data de fabrico:
ontem.
prazo de validade:
enquanto der lucro.
e se amanhã o nome gastar,
troca-se.
como se troca o porco,
o turno,
a história.
e no fim do dia
ninguém lê.
come-se.
arrota-se.
e chama-se a isso
progresso & tradição.
se ainda vês
com esse olho cego
e esse outro que já tudo viu,
brinda connosco:
o nome rende sempre.
e ninguém cora.
o lucro não tem vergonha.
aprendeu cedo.
a cultura é agora
matéria-prima.
data de fabrico:
ontem.
prazo de validade:
enquanto der lucro.
e se amanhã o nome gastar,
troca-se.
como se troca o porco,
o turno,
a história.
e no fim do dia
ninguém lê.
come-se.
arrota-se.
e chama-se a isso
progresso & tradição.
se ainda vês
com esse olho cego
e esse outro que já tudo viu,
brinda connosco:
à glória,
à gordura,
e ao país que trocou
o mar alto
por um balcão de talho.