o fundo da chávena

acordei tarde ou cedo demais
dependendo do lado
esculpido
                   da garrafa

a cidade já estava 
a tentar vender cedo
o dia

a cidade de dentes brancos opiniões
recicladas em catálogos ambulantes
de coisas que tentam ser compradas

homens de gravata invisível 
com cara de enterro mal pago
empurram-se no metro
 como se o inferno pagasse 
o salário

 uma mulher grita patética 
ao telemóvel 
                       ninguém olha
há regras a cumprir
não se olha de frente para 
  o ridículo dos outros
a menos que dê lucro

há quem acorde para
correr atrás do sucesso 
e tropece
na mesma pedra -
o desespero de parecer
interessante:
publica frases que
não entende
  fotografa comida que
não saboreia
vive vidas que
não lhes pertencem
tudo para ganhar 
um like
esse pequeno 
orgasmo digital 

os influenciadores motivacionais 
prometem riquezas & paz interior
a alma gémea
                          ao virar da esquina
um abdómen definido em 30 dias

os políticos continuam 
a vender esperança 
como quem vende na rua
relógios falsos 
sorriem acenam prometem
desaparecem
ai da nossa carteira
continuamos a acreditar 
quase tudo vai mudar 
quase comovente
quase

e eu sentado num 
qualquer bar
penso que talvez o mundo
não esteja a arder -
talvez só esteja a fritar 
lentamente
como um ovo esquecido 
na frigideira

(e nós pobres diabos 
continuamos a mexer a espátula 
como se ainda houvesse 
salvação)

então pedi um café acendi
um cigarro
o café sabia a cinza 
e também a vida

acendi outro cigarro
-mesmo sem fumar-
um reflexo pavloviano
 um hábito imaginário
como ter esperança

lá fora
um mendigo ria
e por um segundo
foi o único homem livre
na rua

   o resto dos transeuntes
  continua a cumprir pena
sem julgamento
sem crime definido 
personagens kafkianas
num cenário de província:

 essa coisa baptizada como
    sociedade & roupa lavada
a cara pintada 
        de rapaces sonhos
um espectáculo 
de stand-up 
onde poucos têm graça 
mas todos insistem em
brilhar

e ali fiquei
a olhar 
o fundo da chávena
imaginando 
   nas borras de café 
a invenção de
                outra saída

mas vi apenas um círculo
   fechado-perfeito-escuro
como o olho da besta
a confirmar

      agora já ninguém
vai acordar tarde
  ou cedo demais

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