a deusa
ela não chega, condensa-se
depois começa a aritmética prateada:
cresce, diminui, desaparece, regressa
construíram altares a partir dos
mas ela não é dádiva nem fim
ela é a gramática da recorrência,
a sintaxe branca que organiza
semente, lâmina, fruto, cinza
segui-la é desaprender a linha recta
escrever em círculos,
a tinta altera-se, inclina-se para
a claridade fria, como se cada letra
chama-a, e ela não virá,
nenhum passo, nenhuma heráldica,
apenas a lenta insistência da maré contra o crânio
a palidez acumula-se à beira do pensamento,
onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos
sente-a primeiro a subtracção:
calor rarefeito, cor drenada,
nomes escorregando como peixes
apenas a lenta insistência da maré contra o crânio
a palidez acumula-se à beira do pensamento,
onde a linguagem se desfaz em gesso e ossos
sente-a primeiro a subtracção:
calor rarefeito, cor drenada,
nomes escorregando como peixes
da rede
para a boca
depois começa a aritmética prateada:
cresce, diminui, desaparece, regressa
ela guarda a sua biblioteca na medula
cada mito uma vértebra, cada amante
cada mito uma vértebra, cada amante
um fóssil de devoção impresso na longa
paciência do seu corpo
os homens chamaram-lhe misericórdia
os homens chamaram-lhe misericórdia
os homens chamaram-lhe perecimento
construíram altares a partir dos
seus erros, nomearam esses ecos
uma epifania
mas ela não é dádiva nem fim
ela é a gramática da recorrência,
a sintaxe branca que organiza
semente, lâmina, fruto, cinza
em frase sem alguma conclusão
segui-la é desaprender a linha recta
escrever em círculos,
falar em imagens que recusam
obedecer
à ténue lógica das horas
ela exige uma coragem diferente:
não o grito, mas a negra escuta
do que oculta ao amanhecer
à ténue lógica das horas
ela exige uma coragem diferente:
não o grito, mas a negra escuta
do que oculta ao amanhecer
à noite, quando a página empalidece
e a mão hesita entre palavra e silêncio,
ela aproxima-se
e a mão hesita entre palavra e silêncio,
ela aproxima-se
sem tocar, nunca toca
a tinta altera-se, inclina-se para
a claridade fria, como se cada letra
se lembrasse de um tempo antes
de existir sem norma e sentido
chama-a, e ela não virá,
esquece-a
e ela organiza o seu esquecimento
e ela organiza o seu esquecimento
em feridas obscuras de uma senda
algures entre o pulso e a pausa, ela
algures entre o pulso e a pausa, ela
espera - não como uma figura, mas
como a lei pela que todas as figuras
como a lei pela que todas as figuras
dissolvem e recriam a brancura
como o negro espaço que a abriga
como o negro espaço que a abriga