autobiografia de ninguém

As pessoas queriam um perdedor que se tornasse um vencedor. Ou um vencedor que se tornasse um vencido. Mas um perdedor que continuasse a ser um perdedor? Isso era muito parecido com elas próprias. Não estavam interessadas em si mesmas.
Charles Bukowski





ficavam à espera de
uma queda
ou
de um milagre
como quem aposta
num cavalo
coxo
ou
num santo
bêbado

queriam a curva
nunca a linha 
recta

um homem
                       que subisse
 com sangue nos dentes
ou
      descesse
com estilo suficiente
para ser citado

mas não suportavam
o tipo que ficava
sentado
no mesmo
banco
com o mesmo
copo
e a mesma
história

esse homem era perigoso

o espectáculo
                 mal iluminado
não prometia 
redenção
               com digno 
final
 
ninguém 
                  queria 
     entrar na sala 
de espelhos
onde
      o perfil das sombras 
     sonhava
o real
 
então viravam 
a cara
pediam 
outra rodada
reinventavam 
heróis

enquanto o homem
continuava
a perder
como quem 
respira
         vagaroso
e pesado
esculpindo a perda

sem aplausos
sem vaias

    existindo 
  o suficiente
para incomodar

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