fuzilamentos
Os Fuzilamentos de Goya (com lanternas na garganta da noite) A colina respira pólvora. Madrid inclina-se para ouvir o estalo breve do mundo a quebrar. Há um sino que não toca, há um relógio sem números - o tempo aprende ajoelhado. Alinham-se como frases interrompidas, homens com nomes guardados no bolso, cartas que nunca foram abertas, um pão que ainda morna na memória. A noite passa-lhes a mão pelo ombro e diz: esquece. Ao centro, a lanterna. Não é luz, é um interrogatório. Ilumina a camisa branca como quem sublinha um erro fatal no manuscrito da história. Braços abertos: não é prece, é espanto que encontrou lugar. O pelotão é um plural sem rosto. Botas conjugam o verbo obedecer. Os olhos não aprendem a ver; aprendem a apagar a visão. Há uma geometria fria que mede a distância entre o coração e chama a isso ordem. No chão, o sangue ensaia uma nova caligrafia, vermelho que tenta dizer nós antes de se tornar silêncio. Um cão di...