eclipse
Para Edmond Jabès
O eclipse não dramatiza a sombra: observa-a
a trabalhar.
O escuro não vem como punição,
mas como forma provisória de leitura.
A mão que cobre o rosto inaugura um saber antigo:
ver menos para ver melhor.
O divino como um livro ilegível
de tanto ter sido tocado pelo fogo.
O eclipse é isso:
um acordo silencioso
para que o instante
por um segundo exacto
saiba que é dono de si.
Escrever torna-se navegação às cegas,
registo do abalo,
e não da rota.
Entre partida e regresso,
o poema aceita a sua condição de bordo instável.
Nada se fixa,
tudo se anota.
Todo o livro é um livro de bordo.
Toda a leitura,
uma travessia.
E quando se fecha o rosto com a mão,
não é sombra:
é o eclipse a ensaiar, em nós,
a sua lenta, perfeita caligrafia.
O escuro não vem como punição,
mas como forma provisória de leitura.
A mão que cobre o rosto inaugura um saber antigo:
ver menos para ver melhor.
O divino como um livro ilegível
de tanto ter sido tocado pelo fogo.
O eclipse é isso:
um acordo silencioso
para que o instante
por um segundo exacto
saiba que é dono de si.
Escrever torna-se navegação às cegas,
registo do abalo,
e não da rota.
Entre partida e regresso,
o poema aceita a sua condição de bordo instável.
Nada se fixa,
tudo se anota.
Todo o livro é um livro de bordo.
Toda a leitura,
uma travessia.
E quando se fecha o rosto com a mão,
não é sombra:
é o eclipse a ensaiar, em nós,
a sua lenta, perfeita caligrafia.