peça a peça

   Dizem-nos: das trevas fez-se luz.

E houve uma manhã - talvez.
  Mas a manhã não nos pertenceu.

      Falaram-nos de uma luz inteira,
como se a inteireza fosse possível
num século de espelhos rachados.

Assim pensámos.
Assim nos ensinaram a pensar
   entre anúncios luminosos
e ruínas de ossos discretos.

Mas quando a luz nasceu
(se nasceu: fragmentou-se):

não em constelações sublimes,
       mas em lâmpadas de tecto
  de corredores administrativos.

Basta olhar para o céu: as trevas 

 continuam. Não como ausência,
mas como afirmação do método.

Medem a dança das luzes com
a paciência mineral das eras.
(outrora chamámos a isso destino).

Outrora como agora, marionetas 

no carrossel do jogo. A música é alegre 

(convém que seja):

quem dança não pergunta
          qual personagem roda a manivela.

   Agora chamamos equilíbrio instável
ao copo esquecido na borda da mesa
    numa casa onde ninguém regressa.

Há momentos em que o vidro do espelho racha. 

Primeiro, um sussurro 

na superfície.
Depois uma fissura que aprende
o próprio nome.
                             Até partir.

Somos os estilhaços.
Translúcidos.
Cortantes.
Reflectindo o céu que não nos reconhece.

             Outrora como agora,

a música repete-se.

Guiados por um amor curioso:
amor ao caos, 

          à desordem organizada,
   ao falso poder que promete
imortalidade aos vencedores,

 esses que escrevem a história
 à boca de cena com a mesma 
           mão que fecha a cortina.

Os mesmos vencedores que prometem
      imortalidade em prestações suaves:
Sim. 
        mas quem escreve as margens?
        Quem recolhe o pó do vidro
ao fim da tarde?

Amor ao caos, dizem. Amor à desordem.
Como se o caos precisasse de afecto
      para cumprir eficazmente o ofício.

E contudo - há um rumor sob o rumor,
uma corrente subterrânea que
         não se deixa contabilizar.

              Não será um clarão heróico.
Não será a restauração da inteireza.

 Será talvez uma pequena chama 
teimosa no intervalo entre trevas,

um gesto mínimo
que não pede permissão
nem promete eternidade.

E se houver redenção,
não virá como sol.
Virá como quem junta estilhaços

não para refazer o vidro antigo,
        mas para aprender a olhar
através das fissuras:

a palavra afiada -
o poema que respira

antes de nascer 

    e regressa ao carrossel 
com avidez de desmontar 

peca a peça

(a noite aprende depressa:

há luzes que,
de tanto se multiplicarem,
acabam por revelar

o mecanismo que
escondem)

a mão oculta.

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