os deuses

A noite ergue-se como uma lona velha 
esticada sobre um mundo cansado.
As estrelas torcem-se no alto, espirais 
de luz numa imensa tenda que alguém 
desenhou para vigiar os que sonham.

Porque ficam os deuses lá fora?
Porque não atravessam a cortina
como quem aceita o risco
de ser apenas mais um na plateia?

Será a pobreza da eternidade?
Ou o truque de quem prefere observar
sem pagar o preço da surpresa?

Ou talvez temam que lhes pintemos
o rosto, lhes demos sapatos bicudos
e gargalhadas demasiado humanas.

Mas, se isso acontecesse, não era
assim tão estranho - os palhaços
governaram desde sempre o circo.

Então que desçam, que entrem
sem pagar nem permissão.
Aqui ninguém lhes pedirá contas.

Só lhes pedimos uma coisa:
não fiquem lá em cima a espreitar.

Há números delicados em cena
e os equilibristas caem ao saber
que são observados das estrelas. 

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