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A mostrar mensagens de fevereiro 8, 2026

trovão

Para Emily Dickinson They shut me up in Prose – como quem fecha a janela para que o vento não desarrume as gavetas do mundo deram-me uma cadeira direita um nome alinhado um dia útil e disseram: respira baixo They shut me up in Prose – como se a alma fosse um pássaro inconveniente a bater asas na biblioteca mediram-me o pulso com régua escolar ensinaram-me a caligrafia  do sossego a gramática da cerca mas o pensamento - esse visitante clandestino  saltava muros invisíveis e escrevia nos intervalos quando eu era ainda uma sílaba indomada um relâmpago a aprender o seu próprio clarão They shut me up in Prose – disseram que a lucidez usa sapatos discretos e não voa nos telhados da infância ah, mas dentro do crânio uma abelha insistia no mel das perguntas e cada palavra que me cosiam à boca abria-se por dentro como uma flor subterrânea They shut me up in Prose – e eu respondi com versos que não cabiam no envelope habitual porque há quem pense que o...

ao contrário

Hark! No whisper mars The utter silence of the untranslated stars. (e. e. Cummings in "Summer Silence") ninguém (salvo o quase) escuta como o nada se inclina porque o mundo é pequeno demais para tanto silêncio e grande demais para caber numa frase eu que sou apenas ninguém com os dedos que escrevem aprendi isto: que as estrelas não existem existem-se              introduzindo o silêncio                     absoluto dentro do silêncio (assim como tu entras em mim sem som) escuta: o universo desaprende o barulho e o coração -  essa frágil pontuação sem precisão bate não porque deve mas porque sim   (sem pedir licença) escuta! nenhum rumor abisma o silêncio absoluto das intraduzíveis                           estrelas         ...

os objectos

os objectos erguem-se - parentes distantes com mãos de vidro - aproximam-se de nós com a delicadeza de quem aprendeu a nossa linguagem escutando atrás das paredes, atrás do sangue, e dão à luz o espanto directamente na concha da boca. competem entre si pela primazia da nossa solidão: a chávena reclama o primeiro frio, a cadeira o peso das nossas perguntas, o relógio o nervo impaciente de sermos ainda matéria. são criaturas modestas,  nunca exigem  a voracidade de estar vivo, contentam-se com a exactidão do pó, com a honra quase vegetal de permanecer. únicos, dizem,  fora e dentro de nós, como se tivéssemos dois corpos e um fosse feito de chaves que não abrem coisa alguma. não interrogam a própria existência, não levantam assembleias de culpa, e no entanto vigiam-nos com a paciência de uma mãe que sabe o nome secreto do filho. ignoram que são,  em si mesmos, a nossa mesma consciência: pequenos espelhos práticos onde a alma vem experimenta...

susto

Aos amantes que esperam como quem mexe o café  com uma estrela anã que tarda em morrer. digo baixinho que as janelas vedadas têm orifícios do tamanho do nosso medo e por eles passa um cavalo feito de horas perdemos nomes ganhamos ferrugem e um relógio ri-se com dentes de ouro há feitiços falidos - sim pendurados como casacos cansados promessas com letras a coxear pelo passeio serpentino da língua e a solidão veste um fato largo o desejo fuma à porta do cinema à porta selada de jogo clandestino a sorte penteia o cabelo ao contrário onde há uma bela ginástica de ossos não procurem a noite como quem procura um interruptor  a noite é um gato eriçado um erro de ortografia  um bolso sem fundo fiquemos com a lição de aprender a cair para cima a escrever o mundo sem levantar o lápis do susto