poesia
Para Marianne Moore
A mim também não me agrada
- disse,
com a franqueza de quem não pede licença à
reverência.
A poesia começa aí:
nesse ligeiro encolher de ombros,
no desajuste entre expectativa e respiração.
Lemo-la com perfeito desprezo -
como quem entra num quarto apenas para confirmar que
nada ali lhe pertence.
E, no entanto, algo insiste:
entre sílabas mal iluminadas,
entre uma imagem que falha e outra que se repete,
descobre-se afinal
um lugar para o genuíno.
Não o genuíno polido,
nem o que sabe posar para retrato,
mas esse que tropeça,
que fala baixo,
que chega atrasado à própria frase,
conforto, entrega restos:
ossos limpos de emoção fácil,
ritmos que não pedem aplauso,
palavras sem vocação para slogan.
E aí, no atrito entre desprezo e atenção,
algo respira:
uma coisa pequena, obstinada,
indiferente ao gosto,
imune à moda.
Chamamos-lhe poesia
por falta de melhor nome,
mas ela prefere existir
como alguém que não quer
Algo ficou mal alinhado no mundo.
Uma frase respira onde não devia,
um pensamento recusa obedecer.
Não gostámos.
Mas foi tarde demais.
O genuíno já nos tinha reconhecido
e, com a discrição de um sem-abrigo,
instalou-se em silêncio
no lugar exacto
onde a linguagem começa
a falar sozinha.
A poesia começa aí:
nesse ligeiro encolher de ombros,
no desajuste entre expectativa e respiração.
Lemo-la com perfeito desprezo -
como quem entra num quarto apenas para confirmar que
nada ali lhe pertence.
E, no entanto, algo insiste:
entre sílabas mal iluminadas,
entre uma imagem que falha e outra que se repete,
descobre-se afinal
um lugar para o genuíno.
Não o genuíno polido,
nem o que sabe posar para retrato,
mas esse que tropeça,
que fala baixo,
que chega atrasado à própria frase,
sabendo que a poesia não promete
conforto, entrega restos:
ossos limpos de emoção fácil,
ritmos que não pedem aplauso,
palavras sem vocação para slogan.
E aí, no atrito entre desprezo e atenção,
algo respira:
uma coisa pequena, obstinada,
indiferente ao gosto,
imune à moda.
Chamamos-lhe poesia
por falta de melhor nome,
mas ela prefere existir
como alguém que não quer
ser notado.
E quando fechamos o livro,
convencidos de que nada aconteceu -
levamos connosco uma irregularidade.
E quando fechamos o livro,
convencidos de que nada aconteceu -
levamos connosco uma irregularidade.
Algo ficou mal alinhado no mundo.
Uma frase respira onde não devia,
um pensamento recusa obedecer.
Não gostámos.
Mas foi tarde demais.
O genuíno já nos tinha reconhecido
e, com a discrição de um sem-abrigo,
instalou-se em silêncio
no lugar exacto
onde a linguagem começa
a falar sozinha.