vertigem


Para Walt Whitman 




Quando o astrónomo dissertava, o mundo tomou a forma de um cálculo. As estrelas, livres outrora, em respirações longínquas, foram empilhadas em prateleiras de supermercados, domesticadas por números como degraus enfileirados em escadas. 

Sentava-me entre outros corpos inclinados na direcção da voz que dissecava o pulsar do eco das estrelas. O quadro branco em que escrevia, tornara-se um campo de batalha, onde a noite era traduzida em sinais e o mistério perdia a qualidade intraduzível. O aplauso final surgiu como uma confirmação de que se tratara a matéria do modo incorrigivelmente certo, de que o cosmos cabia inteiro na linguagem que soprava um alfabeto sem vertigem e qualquer súbito espanto.

Mas dentro de mim algo começou a falhar como um instrumento desafinado perante uma pauta demasiado exacta. Um cansaço sem causa tomou conta dos meus ossos, uma espécie de febre silenciosa, como se o excesso de clareza me tivesse roubado o ar. Não o ar que pesava, mas o modo como se fechava sobre si mesmo, como se a portada de uma janela se tivesse esquecido de respirar o compasso do mundo.

Levantei-me sem ruído, abandonei a sala, as espirais de gráficos, a geometria das certezas. Lá fora, a noite nada me exigia. O ar húmido envolvia-me como um parto de um pensamento que nascia. E então olhei para cima. 

As estrelas regressavam: olhos de silêncio ardentes, distantes e intactas, indiferentes ao vício humano de as mesurar. Não precisava de as entender. Bastava-me estar ali, sob a leveza do seu olhar, onde o mistério não era o valor da letra incógnita de uma equação por resolver mas a forma plena da presença. 

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