genialidade

I met a genius on the train
today
about 6 years old,
he sat beside me
and as the train
ran down along the coast
we came to the ocean
and then he looked at me
and said,
it's not pretty.

it was the first time I'd
realized
that.
Charles Bukowski 




A besta de metal seguia em frente, um tremor familiar contra as solas dos meus sapatos gastos. A luz do sol, um amarelo barato, invadia o assento de vinil. E depois, a pequena interrupção. Presença silenciosa, uma súbita constelação de curiosidade ao meu lado. Seis anos, talvez, a sua idade, olhos que contemplavam a vastidão de um futuro ainda não escrito. Movemo-nos. A paisagem ficou turva, um borrão verde dando lugar ao hálito salgado e cortante da proximidade. E o oceano chegou. Não uma revelação súbita, mas um desenrolar lento e azul, quilómetro após quilómetro, o ritmo incansável da maré em conflito com a areia. Já o vira inúmeras vezes. Um cenário de postal ilustrado. Um silêncio azul. Algo a ser admirado, por dever. Também o observava, este pequeno vizinho da carruagem barulhenta. A sua cabeça mal ultrapassava a moldura da janela. Não se inclinou para a frente em admiração, não se espantou com a imensidão indiferente. Virou a cabeça, um ligeiro movimento, uma pequena alteração de julgamento. E as palavras caíram, sem adornos, como pedras lisas e cinzentas no chão poeirento da carruagem: não é bonito. O som pairava no ar, inconfundível. Uma ruptura completa com a expectativa. Olhei para a água, olhei de verdade, para além do brilho, para além do cliché. Era imensa e fria, uma vasta e irrequieta máquina de sal e água, insensível e brutal na sua infinitude. Foi a primeira vez que me apercebi disso. O garoto vira a coisa sem verniz, não precisava da aprovação das ondas.  

A viagem continuou, entoando a sua canção monótona, mas algo dentro de mim lhe mudara o lastro, se acomodava de forma diferente. A genialidade não estava em criar um modo de ver diferente, mas em nomear a visão pelo que realmente era, sem o fardo da necessidade de ser algo além de si mesma. E naquela observação crua e salgada, naquela simples recusa da beleza fácil, havia uma súbita e surpreendente clareza. Uma espécie de terrível e genuína graça. 

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