pássaro

Para José Gomes Ferreira



Nunca encontrei um pássaro morto na floresta.

Caminhei como quem procura uma prova — não da morte, mas do seu peso. A manhã abria-se húmida, com aquele silêncio verde que parece respirar antes de nós. Afastei ramos, inclinei-me sobre musgos, espiei entre raízes que guardam segredos com a paciência dos séculos. Em vão. Nem uma pena desordenada, nem um corpo mínimo entregue à gravidade. A floresta devolvia-me apenas o rumor das folhas, como se dissesse: aqui nada termina, tudo começa.

Procurei um cadáver pequenino que desse o sangue às flores, que ensinasse às pétalas o verbo vermelho. Imaginei as asas desfeitas, ofertadas às folhas secas como mapas de um voo interrompido. Mas as flores mantinham o seu rubor intacto, as folhas continuavam a cair por conta própria, sem empréstimos do céu. Talvez a morte, ali, seja uma invenção humana — um hábito de medir ausências.

Houve um momento em que parei. O sol atravessava as copas como uma água dourada, e percebi que a floresta não é um cemitério, é uma oficina. O que cai torna-se raiz, o que se desfaz aprende a ser chão. Mas os pássaros… os pássaros recusam essa gramática. Não aceitam o ponto final da terra.

Os pássaros quando morrem
caem no céu.

Talvez seja por isso que nunca encontrei algum. Eles não deixam rasto no húmus porque regressam ao elemento que os ensinou a ser leves. A morte deles é uma espécie de inversão: em vez de peso, ascensão; em vez de silêncio, altitude. Não se enterram — expandem-se. E o céu, cúmplice antigo, recolhe-os como quem recolhe palavras nunca anunciadas.

Fiquei ali, a manhã já inclinada para a tarde, a compreender que a ausência também é uma forma de voo. Voltei para casa sem  nenhuma prova, mas com a suspeita luminosa de que há criaturas que não pertencem ao chão nem mesmo quando deixam de respirar. E desde então, quando uma ave risca o ar acima de mim, não penso na sua queda - penso na promessa secreta de que tudo o que aprende a voar desaprende a morrer.

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