O Verbo Imóvel

Dizem-me: cresce.
Como se fosse uma escada esquecida encostada 
a uma parede.
Como se dentro de mim houvesse degraus por inaugurar,
como se a vida fosse uma sucessão de andares
e eu, um inquilino atrasado.

Mas não subo.
Não desço.
Não me desdobro em versões mais aceitáveis
de mim mesmo.

Eu sou.

É curioso, não é?
Essa fome dos outros de me verem mudar.
Tornar-me melhor, maior, mais qualquer coisa.
Como se o presente fosse um rascunho
e o futuro, essa promessa mal iluminada,
o único lugar onde finalmente justificaria 
a minha existência.

Mas não sou um projecto.
Não sou uma obra em andamento com andaimes 
emocionais.
Não há fita de inauguração no meu peito.

Eu sou.

Ser.. é um verbo pesado,
não porque exija esforço,
mas porque recusa movimento.

Ser não pede aplauso,
não pede direcção.
não pede sequer compreensão.

Ser é esse instante bruto,
sem antes nem depois,
sem currículo, sem meta.

E talvez seja isso que os inquieta.
O meu desinteresse em evoluir para algo mais 
confortável, mais narrável, mais vendável.

Querem histórias de redenção.
Ofereço presença.

Querem linhas ascendentes.
Sou um ponto fixo.

Se não caminho para lugar algum,
Se não me transformo em nada além 
do que sou…
isso torna-me inútil?
Ou apenas… livre?

Não me desenvolvo.
Não me melhoro.
Não me corrijo.

Eu sou.

E, por um instante, isso basta.

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