mineral
Para Ruy Belo
Quero a mudez das rochas, essa paciência antiga,
despir a carne, o nervo e sempre vã inquietação.
Ser apenas a substância que ao mundo se liga,
sem peso de fôlego, mas com a força do chão.
Minha suprema ambição é o repouso do granito,
impassível presença que o tempo não consome,
trocar esse grito humano, frágil e aflito,
pela paz de quem não precisa de nome.
Não volto à terra por castigo ou sorte adversa,
mas pelo desejo que em mim longo se fez:
ser a raiz, o estrato, a densa e muda esfera,
passar a ser a voz da terra, de uma só vez.
Pois no dia em que meu corpo nela se dissolva
e minha voz se funda em seu eco profundo,
então serei mais do que alguma vez pude dizer,
serei a própria voz que alimenta o mundo.
Mais do que o verso escrito ou a fala passageira,
vale a verdade do barro, a firmeza do cristal:
a minha palavra final será poeira,
a glória de ser, enfim, apenas mineral.