trovão

Para Emily Dickinson


They shut me up in Prose –

como quem fecha a janela
para que o vento não desarrume
as gavetas do mundo

deram-me uma cadeira direita
um nome alinhado
um dia útil
e disseram: respira baixo

They shut me up in Prose –

como se a alma fosse
um pássaro inconveniente
a bater asas na biblioteca

mediram-me o pulso
com régua escolar
ensinaram-me a caligrafia do sossego
a gramática da cerca

mas o pensamento -
esse visitante clandestino 
saltava muros invisíveis
e escrevia nos intervalos

quando eu era ainda
uma sílaba indomada
um relâmpago a aprender
o seu próprio clarão

They shut me up in Prose –

disseram que a lucidez
usa sapatos discretos
e não voa
nos telhados da infância

ah, mas dentro do crânio
uma abelha insistia
no mel das perguntas

e cada palavra
que me cosiam à boca
abria-se por dentro
como uma flor subterrânea

They shut me up in Prose –

e eu respondi
com versos que não cabiam
no envelope habitual

porque há quem pense
que o céu é o tecto final

e há quem o empurre

com o ombro invisível
da imaginação

They shut me up in Prose –

e foi então
que aprendi
a falar
como um trovão
baixinho

e quando pensam
que tudo é disciplina
e dia dominical

o céu inclina-se
um milímetro

o suficiente

para que o impossível
atravesse a porta

sem bater

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