cúmplices
A cobardia não grita em alvoroço,
não fecha as portas com estrondo,
não rasga o ar com botas.
Senta-se. Espera.
A cobardia veste roupa comum,
tem mãos limpas,
olhos baixos,
Dizem: Não fui eu.
sem tijolos visíveis.
ajusta o casaco, consulta o relógio,
Basta-lhe o intervalo
Basta-lhe o pequeno acordo
onde a consciência adormece.
Multiplica-se
a cobardia, discreta, abandona a sala.
não fecha as portas com estrondo,
não rasga o ar com botas.
Senta-se. Espera.
A cobardia veste roupa comum,
tem mãos limpas,
olhos baixos,
e um silêncio muito bem educado.
Dizem: Não é o momento.
Dizem: Não é o momento.
Dizem: Não fui eu.
Dizem: Nada posso fazer.
E assim se constrói um muro
E assim se constrói um muro
sem tijolos visíveis.
Enquanto isso, alguém cai.
E quem viu,
ajusta o casaco, consulta o relógio,
engole a palavra que poderia existir.
A cobardia não precisa de armas.
A cobardia não precisa de armas.
Basta-lhe o intervalo
entre o que se sabe
e o que se diz.
e o que se diz.
Basta-lhe o pequeno acordo
com o conforto,
essa cadeira demasiado mole
essa cadeira demasiado mole
onde a consciência adormece.
Mas há um detalhe incómodo:
a cobardia nunca age sozinha.
a cobardia nunca age sozinha.
Multiplica-se
em cada ombro encolhido,
em cada riso deslocado,
em cada riso deslocado,
em cada porta que não se abre.
E quando por fim perguntam:
Quem deixou que isso acontecesse?
Quem deixou que isso acontecesse?
a cobardia, discreta, abandona a sala.