solução da noite
Aos amigos que esperam encontrar-na solução da noite
como quem procura moedas debaixo da língua elétrica da cidade, digo-vos:
o sulfato dos dias é um cão a morder a própria sombra,
e nós atiramos-lhe ossos chamados segunda-feira,
chamados salário, chamados paciência com desconto.
nas janelas vedadas respiram insectos burocráticos,
orifícios por onde espreita o olho cansado dos impérios,
e nos cruzamentos do tempo e do lugar, um polícia
invisível multa-nos o coração por excesso de sonho.
vi feitiços falidos a boiar no Tejo de plástico,
promessas em MAIÚSCULAS a vender aspiradores metafísicos,
letras tortas, colunas de um templo bêbado onde os profetas
dormem com a boca cheia de recibos.
digo-vos, ó amigos de todos os tempos,
a solidão tem um megafone rachado
o desejo toca saxofone nas costelas da noite,
no salão de jogo a esperança perde os sapatos
enquanto revólveres jogam à roleta russa.
há sempre uma forma de dizer não
vestida a rigor de fato e gravata,
cumprindo o ritual hipócrita de dizer sim,
como quem beija a mão que lhe aperta a garganta.
caminhemos então pelas avenidas do espanto,
com os bolsos cheios de relâmpagos ilegais,
gritemos aos elétricos, às padarias, aos ministérios adormecidos,
que a vida não cabe em formulários.
quero uma noite sem coleira,
um país que aprenda a soletrar o próprio delírio,
quero os meus amigos de pé sobre os telhados
a mastigar estrelas como pastilhas elásticas.
e se a solução não vier - melhor!
inventemos outra,
com o barro sujo das unhas,
quero uma noite sem coleira,
um país que aprenda a soletrar o próprio delírio,
quero os meus amigos de pé sobre os telhados
a mastigar estrelas como pastilhas elásticas.
e se a solução não vier - melhor!
inventemos outra,
com o barro sujo das unhas,
com o riso que sobra depois do fim do mês,
com este uivo de lobo colectivo que insiste
em chamar futuro
ao coração desobediente.