o pó nos sapatos
Para Hilda Hilst
que as palavras te acompanhem
mesmo quando fingem silêncio.
Homens do nosso tempo
não vos escrevo para embalar o sono.
Escrevo com a luz acesa
e a porta aberta -
quem entra, assuma o pó nos sapatos.
Falais de progresso,
a boca cheia de estatísticas.
Mas no prato
há sempre o mesmo osso
e alguém fica a roer o silêncio.
Aprendestes a dizer ordem
como quem diz amanhã.
Uma palavra limpa,
lavada em gabinetes,
enquanto na rua se aprende
a gramática da fome.
Não vos falo de amor
como quem vende perfumes.
Amor aqui é um método rude:
olhar de frente para o outro
sem desviar os olhos.
Homens do nosso tempo,
construireis máquinas sencientes,
mas haveis pedido aos homens
que desaprendessem de sentir.
Chamastes eficiência
à pressa de esmagar perguntas.
A poesia, dizeis, não serve.
Serve pouco, muito pouco.
Como uma lâmpada mal pendurada
numa sala de interrogatórios:
não resolve o caso,
mas impede a escuridão completa.
Sei bem:
preferis versos obedientes,
domesticados, que não perturbem
e a porta aberta -
quem entra, assuma o pó nos sapatos.
Falais de progresso,
a boca cheia de estatísticas.
Mas no prato
há sempre o mesmo osso
e alguém fica a roer o silêncio.
Aprendestes a dizer ordem
como quem diz amanhã.
Uma palavra limpa,
lavada em gabinetes,
enquanto na rua se aprende
a gramática da fome.
Não vos falo de amor
como quem vende perfumes.
Amor aqui é um método rude:
olhar de frente para o outro
sem desviar os olhos.
Homens do nosso tempo,
construireis máquinas sencientes,
mas haveis pedido aos homens
que desaprendessem de sentir.
Chamastes eficiência
à pressa de esmagar perguntas.
A poesia, dizeis, não serve.
Serve pouco, muito pouco.
Como uma lâmpada mal pendurada
numa sala de interrogatórios:
não resolve o caso,
mas impede a escuridão completa.
Sei bem:
preferis versos obedientes,
domesticados, que não perturbem
a conversa à sobremesa.
Mas este poema não pede desculpa.
Aponta o dedo. Porque ainda é cedo
- cedo demais - para aceitar o mundo
como se apresenta no relatório final.
É tarde para fingir inocência.
Homens do nosso tempo,
se vos falo é porque ainda respirais.
E enquanto houver respiração,
não vos peço pureza. Peço atenção.
Do resto os senhores da história
Mas este poema não pede desculpa.
Aponta o dedo. Porque ainda é cedo
- cedo demais - para aceitar o mundo
como se apresenta no relatório final.
É tarde para fingir inocência.
Homens do nosso tempo,
se vos falo é porque ainda respirais.
E enquanto houver respiração,
não vos peço pureza. Peço atenção.
Do resto os senhores da história
servirão com pedagogia habitual
cada sopro, cada prova de vida -
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Palavra que não pede abrigo,
entrando altiva pelo ouvido
como um incêndio educado,
sentada à mesa do costume.
entrando altiva pelo ouvido
como um incêndio educado,
sentada à mesa do costume.
E os nossos ossos têm memórias
de sal como bibliotecas, arquivos
esquecidos em passos perdidos.
E o sangue das gentes não corre:
insiste. Bate às portas da história
- milhões de punhos em chamas -
- milhões de punhos em chamas -
ninguém atende o sinal urgente.
E a vida dos homens é como
a planta mais frágil que
se mastiga em discursos,
se repisa em slogans -
a planta mais frágil que
se mastiga em discursos,
se repisa em slogans -
prato vazio, servida fria
entre os vossos dentes.
entre os vossos dentes.
E se ainda perguntais
que palavra fica - digo:
Fica a palavra que não cabe
na língua, a que rói por dentro,
a que nunca aceita sinónimos.
a que nunca aceita sinónimos.
Fica a palavra súbita que
morde como uma faísca.