o pó nos sapatos
Para Hilda Hilst que as palavras te acompanhem mesmo quando fingem silêncio. Homens do nosso tempo não vos escrevo para embalar o sono. Escrevo com a luz acesa e a porta aberta - quem entra, assuma o pó nos sapatos. Falais de progresso, a boca cheia de estatísticas. Mas no prato há sempre o mesmo osso e alguém fica a roer o silêncio. Aprendestes a dizer ordem como quem diz amanhã . Uma palavra limpa, lavada em gabinetes, enquanto na rua se aprende a gramática da fome. Não vos falo de amor como quem vende perfumes. Amor aqui é um método rude: olhar de frente para o outro sem desviar os olhos. Homens do nosso tempo , construireis máquinas sencientes, mas haveis pedido aos homens que desaprendessem de sentir. Chamastes eficiência à pressa de esmagar perguntas. A poesia, dizeis, não serve. Serve pouco, muito pouco. Como uma lâmpada mal pendurada numa sala de interrogatórios: não resolve o caso, mas impede a escuridão completa. Sei bem: preferis versos obedientes, do...