O Verbo Imóvel
Dizem-me: cresce. Como se fosse uma escada esquecida encostada a uma parede. Como se dentro de mim houvesse degraus por inaugurar, como se a vida fosse uma sucessão de andares e eu, um inquilino atrasado. Mas não subo. Não desço. Não me desdobro em versões mais aceitáveis de mim mesmo. Eu sou. É curioso, não é? Essa fome dos outros de me verem mudar. Tornar-me melhor, maior, mais qualquer coisa. Como se o presente fosse um rascunho e o futuro, essa promessa mal iluminada, o único lugar onde finalmente justificaria a minha existência. Mas não sou um projecto. Não sou uma obra em andamento com andaimes emocionais. Não há fita de inauguração no meu peito. Eu sou. Ser.. é um verbo pesado, não porque exija esforço, mas porque recusa movimento. Ser não pede aplauso, não pede direcção. não pede sequer compreensão. Ser é esse instante bruto, sem antes nem depois, sem currículo, sem meta. E talvez seja isso que os inquieta. O meu desinteresse em...