os objectos

os objectos erguem-se -
parentes distantes com mãos de vidro -
aproximam-se de nós
com a delicadeza de quem aprendeu
a nossa linguagem escutando
atrás das paredes, atrás do sangue,
e dão à luz o espanto
directamente na concha da boca.

competem entre si
pela primazia da nossa solidão:
a chávena reclama o primeiro frio,
a cadeira o peso das nossas perguntas,
o relógio o nervo impaciente
de sermos ainda matéria.

são criaturas modestas, nunca exigem 
a voracidade de estar vivo,
contentam-se com a exactidão do pó,
com a honra quase vegetal
de permanecer.

únicos, dizem, fora e dentro de nós,
como se tivéssemos dois corpos
e um fosse feito de chaves
que não abrem coisa alguma.

não interrogam a própria existência,
não levantam assembleias de culpa,
e no entanto vigiam-nos
com a paciência de uma mãe
que sabe o nome secreto do filho.

ignoram que são, em si mesmos,
a nossa mesma consciência:

pequenos espelhos práticos
onde a alma vem experimentar
o tamanho do medo,
enquanto a noite cresce e nos

empresta os seus garfos, facas, 
colheres para provar, em silêncio,
o estranho alimento de sermos.

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