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A mostrar mensagens de março 1, 2026

recibo

supõem que me estão a inventar? um homem num quarto barato com o gosto metálico da noite supõem que me olho  no espelho?            O tipo que lá está  parece ter  perdido as suas guerras embora não se lembre - o café é fraco e lá fora passam carros buzinando  memórias como se soubessem  onde vão - o que é suspeito  (acendo um cigarro  imaginário os reais acabaram ontem  junto com  algumas  certezas  que fingia ter) supõem que me estão a inventar? a comédia alternativa seria  admitir  que o trabalho sério os bares  a mulher  desejável  tudo já  havia sido reescrito  num  guardanapo  amarrotado em algum bar onde o universo bebe                                  sozinho então invento mais um dia  mais  uma versão            ...

corpos escritos

Fazer amor em poesia não é deixar a marca de rimas  num lençol branco  ou procurar a metáfora perfeita para o teu flanco.  É um acto de desobediência contra o silêncio. É tirar a roupa das palavras até que elas fiquem nuas, trémulas, sem o casaco pesado dos dicionários ou a gravata apertada da sintaxe. É ler a tua pele como se fosse um manuscrito  descoberto numa cave  cheirando a café, jazz  e revolução  onde cada curva do teu corpo é um verso que o censor se esqueceu de apagar. Não precisamos de gramática para este momento. A nossa pontuação é o fôlego curto: um ponto final no umbigo, reticências que descem pelas vértebras, um ponto de exclamação no encontro das bocas. Estamos a imprimir uma edição clandestina de nós próprios, sem editores, sem revisores, sem medo de que o mundo lá fora não entenda a nossa métrica selvagem. Porque, no fim, meu amor, a melhor poesia não se lê com os olhos: escreve-se com o peso do corpo.

Autobiografia

  Para Dorothy Parker Oh, both my shoes are shiny new,      And pristine is my hat; My dress is 1922. . . .     My life is all like that. ( Autobiography from Enough Rope , 1926) Oh, os meus novos sapatos brilham, como promessas recém-nascidas vernizes ainda intactos reflectindo um mundo que mal me reconhece E antigo é o meu chapéu; traz na aba o pó de estações vividas a sombra de pegadas de outras ruas O meu vestido é de 1922… cheira ao riso das festas antigas música de gramofone invisível eco de vozes que risos silenciam A minha vida inteira é assim. um brilho incerto começa nos pés uma memória faz ninho na cabeça

Ode à Desobediência

Para Álvaro de Campos  À vontade de ser tudo e o nada que me dão, Às ordens vindas de baixo, de cima, de lado, Respondo com o estalido seco da minha própria negação! Desobediência é coerência, ouvi dizer, E que frase tão certa para quem tem o universo a arder no peito E um relógio de pulso a marcar as horas de um tédio infinito. Sinto-me um motor gripado no meio da multidão ordenada! Todos caminham para o emprego, para a ceia, para a morte previsível, E eu, que sou um amontoado de sensações contraditórias, Desobedeço à linha recta porque o meu destino é o desvio! Sim, sou coerente com a minha própria incoerência, Com esta inquietação que é a única coisa real que possuo. Mandam-me ser útil? Eu sou inútil como uma estrela ao meio-dia! Mandam-me ser prático? Eu perco-me a contar as manchas de óleo no Tejo! Toda a gente aceita o contrato, a submissão, a etiqueta, Mas eu, Álvaro de Campos, engenheiro de nenhures, Saúdo a revolta de não querer ser nada do que me é imposto...