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A mostrar mensagens de fevereiro 15, 2026

chama

Para Al Berto Se conseguires entrar em casa e o ar tiver a espessura do presságio, não recues. A porta pode ranger como se abrisse a boca de um século, e ainda assim — entra. Talvez alguém esteja em fogo na tua cama . Não um corpo a arder, mas uma memória acesa, uma figura feita de brasas antigas, ardendo sem consumir os lençóis. O incêndio não é destruição: é visita. A madeira do soalho começará a brilhar como cera derretida, e na sua superfície verás desenhar-se a sombra de uma cidade que nunca habitaste. Ruas que não pisaste, varandas onde ninguém te chamou pelo nome - e, no entanto, tudo te pertence. Do tecto cairá uma chuva miudinha, contínua, cintilante, como se as estrelas tivessem escolhido a tua sala para desabar em silêncio. Não te assustes. Há clarões que não queimam; apenas iluminam o que estava esquecido. São os teus antepassados . Levantaram-se por um instante da longa inércia dos séculos , sacudindo o pó do tempo como quem ajeita um casaco antigo. Vêm sem passos, vêm...

pássaro

Para José Gomes Ferreira Nunca encontrei um pássaro morto na floresta . Caminhei como quem procura uma prova — não da morte, mas do seu peso. A manhã abria-se húmida, com aquele silêncio verde que parece respirar antes de nós. Afastei ramos, inclinei-me sobre musgos, espiei entre raízes que guardam segredos com a paciência dos séculos. Em vão . Nem uma pena desordenada, nem um corpo mínimo entregue à gravidade. A floresta devolvia-me apenas o rumor das folhas, como se dissesse: aqui nada termina, tudo começa. Procurei um cadáver pequenino que desse o sangue às flores , que ensinasse às pétalas o verbo vermelho. Imaginei as asas desfeitas, ofertadas às folhas secas como mapas de um voo interrompido. Mas as flores mantinham o seu rubor intacto, as folhas continuavam a cair por conta própria, sem empréstimos do céu. Talvez a morte, ali, seja uma invenção humana — um hábito de medir ausências. Houve um momento em que parei. O sol atravessava as copas como uma água dourada, e percebi q...

absurdo

Um palco quase vazio. No centro, uma cadeira transparente. À direita, uma montanha feita de tecido leve. À esquerda, um mapa em branco suspenso no ar. No fundo, uma parede com uma pequena racha luminosa. Silêncio. Um silêncio que parece ter demasiado ensaiado para estar ali. (Entra Ícaro, com cuidado, como quem pisa a luz.) ÍCARO Alguém viu o sol?  Emprestei-lhe as asas e ainda não as devolveu. (A montanha suspira. Surge Atlas, quase invisível.) ATLAS Não há sol.  Há apenas uma ideia quente a fingir-se de astro. ÍCARO Isso explica a transparência excessiva do dia.  Sinto-me mal fundido. (O mapa treme. Entra Astreu, segurando uma folha em branco que vibra.) ASTREU Peço silêncio!  O nada acaba de mudar de direção. ÍCARO Outra vez? ASTREU Sim. Agora sopra para dentro. ATLAS Impossível.  O dentro é uma invenção do lado de fora. (De uma pequena fenda, um fio de luz pulsa. Surge Urânia, observando a parede.) URÂNIA Discutem superfícies  e ignoram ...

vício

A poesia é uma droga barata, das que se enrolam num guardanapo manchado de tinta & letras  que esperam por ti na mesa gordurosa de um café  há décadas. Entras sóbrio. sais com palavras a tropeçar-te  nos dentes. Foi o que me aconteceu numa noite qualquer depois do terceiro verso (ou do quarto - a matemática nunca foi grande coisa quando a solidão começa a falar alto). li duas linhas do poema e pensei: isto é somente sujidade  organizada. mas não era. era uma agulha invisível a furar-me o silêncio. desde então a poesia mete-se comigo como uma amante que não paga  a renda  e nunca sai do quarto. acordo com frases ressacadas, durmo com metáforas por lavar. o frigorífico está vazio mas o caderno está cheio - e isso não paga                       as contas da casa. dizem que é vício. dizem que é fuga. dizem que devia arranjar  um trabalho a sério. já tentei. mas nenhuma ...

peça a peça

   Dizem-nos: das trevas fez-se luz. E houve uma manhã - talvez.   Mas a manhã não nos pertenceu.       Falaram-nos de uma luz inteira, como se a inteireza fosse possível num século de espelhos rachados. Assim pensámos. Assim nos ensinaram a pensar    entre anúncios luminosos e ruínas de ossos discretos. Mas quando a luz nasceu (se nasceu:  fragmentou-se): não em constelações sublimes,        mas em lâmpadas de tecto   de corredores administrativos. Basta olhar para o céu:  as trevas   continuam.  Não como ausência, mas como afirmação do método. Medem a dança das luzes com a paciência mineral das eras. (outrora chamámos a isso destino). Outrora como agora, marionetas  no  carrossel do jogo.  A música é alegre  ( convém que seja): quem dança não pergunta           qual personagem roda a manivela.    Agora chamamos equilíbrio inst...