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A mostrar mensagens de fevereiro 1, 2026

solução da noite

Aos amigos que esperam encontrar-na solução da noite  como quem procura moedas debaixo da língua elétrica da cidade,  digo-vos: o sulfato dos dias é um cão a morder a própria sombra, e nós atiramos-lhe ossos chamados segunda-feira, chamados salário, chamados paciência com desconto. nas janelas vedadas respiram insectos burocráticos, orifícios por onde espreita o olho cansado dos impérios, e nos cruzamentos do tempo e do lugar,  um polícia  invisível multa-nos o coração por excesso de sonho. vi feitiços falidos a boiar no Tejo de plástico, promessas em MAIÚSCULAS a vender aspiradores metafísicos,  letras tortas,  colunas de um templo bêbado onde os profetas  dormem com a boca cheia de recibos. digo-vos, ó amigos de todos os tempos, a solidão tem um megafone rachado o desejo toca saxofone nas costelas da noite, no salão de jogo a esperança perde os sapatos enquanto revólveres jogam à roleta russa. há sempre uma forma de dizer não vestida a r...

devoção

Para Sylvia Plath lâmina doméstica  a arder por dentro. O pássaro precisa de aprender a voar como quem aprende a usar uma faca na cozinha demasiado branca da manhã. Tudo brilha com dentes: o copo, o relógio, a boca da mãe. Nasceu com um coração de relógio partido, tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas. Dizem-lhe: tenta outra vez, o céu é um prato limpo. Mas o céu tem nódoas que não saem. Treina no quintal das coisas úteis: o balde, a corda, a camisa a secar como um fantasma dócil. Cada impulso é uma carta sem selo endereçada a um deus com auscultadores. O pássaro precisa de aprender a voar e o mundo oferece manuais de boas maneiras: não grites, não sangres, sorri com a boca fechada como as bonecas que sabem morrer. Debaixo das penas mora uma casa em chamas. As paredes perguntam pelo jantar, o espelho penteia-lhe o medo com dedos de enfermeira cansada. Há sempre alguém a medir-lhe a sombra. Então cresce um centímetro - o bastante para ouvir os si...