Anjo
“Todo o Anjo é terrível”,
disse,
e eu acrescento: tão terrível
que aprisiona ao Lugar.
António Barahona
Não ao lugar geográfico -
não à rua, nem à casa, nem ao nome da cidade -
mas a esse ponto fixo onde a alma
fica suspensa como um prego de luz.
O anjo não empurra:
detém.
Não fere:
imobiliza com claridade excessiva.
Terrível porque mostra
a forma exacta do nosso medo,
o contorno nítido do desejo,
a pergunta sem portas.
Onde o anjo passa,
o tempo perde mobilidade
como quem foi visto por dentro.
O Lugar é esse:
o sítio onde já não somos metáfora,
onde a linguagem deixa de proteger,
onde o silêncio tem peso específico.
Por isso trememos.
Não porque o anjo venha do alto,
mas porque nos fixa -
como um espelho que decide lembrar-se de nós.
O Lugar é esse:
o sítio onde já não somos metáfora,
onde a linguagem deixa de proteger,
onde o silêncio tem peso específico.
Por isso trememos.
Não porque o anjo venha do alto,
mas porque nos fixa -
como um espelho que decide lembrar-se de nós.
E assim permanecemos:
O anjo não fecha a porta.
Aprende connosco a falha.
Aprende connosco a falha.
Aprisiona ao Lugar
como quem ensina a respirar dentro da pedra,
como quem diz:
fica - não para obedecer,
mas para escutar o que ainda falha o nome.
fica - não para obedecer,
mas para escutar o que ainda falha o nome.
O Lugar começa então a mover-se.
Lentamente.
Quase imperceptível.
E percebemos:
não era a fuga que nos faltava,
era a coragem de habitar
o exacto ponto onde a luz hesita
em falhar.