sabor

Para Frank O'Hara


Merda na sopa, deixa-a queimar.
Tudo está de volta.
Nunca estarás mentalmente sóbrio.
E talvez seja melhor assim.
Porque a panela ferve
mesmo quando ninguém está na cozinha,
e o cheiro - meio carvão, meio memória -
sobe pelas paredes
como uma notícia que ninguém leu.
Lembras-te de quando
as manhãs eram apenas café
e uma janela aberta?
Agora há sempre qualquer coisa a arder
no fundo do dia.
Merda na sopa, sim -
um erro, um gesto brusco,
uma colher esquecida
a rodar como um planeta pequeno
no caldo do mundo.
Tudo está de volta:
a rua molhada,
os nomes que disseste depressa demais,
o riso de alguém
numa mesa onde já não te sentas.
E a cabeça,
essa panela impossível,
nunca desliga o lume.
Nunca estarás mentalmente sóbrio.
Há sempre um pensamento a fermentar,
uma palavra atravessada,
uma lembrança a borbulhar
até saltar pela borda.
Deixa a sopa queimar um pouco.
Às vezes é o fundo escuro
que tem realmente  sabor.

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