devoção
Para Sylvia Plath
lâmina doméstica a arder por dentro.
O pássaro precisa de aprender a voar
como quem aprende a usar uma faca
na cozinha demasiado branca da manhã.
Tudo brilha com dentes:
o copo, o relógio, a boca da mãe.
Nasceu com um coração de relógio partido,
tic-tac de sangue contra a gaiola das costelas.
Dizem-lhe: tenta outra vez,
o céu é um prato limpo.
Mas o céu tem nódoas que não saem.
Treina no quintal das coisas úteis:
o balde, a corda, a camisa a secar
como um fantasma dócil.
Cada impulso é uma carta sem selo
endereçada a um deus com auscultadores.
O pássaro precisa de aprender a voar
e o mundo oferece manuais de boas maneiras:
não grites, não sangres,
sorri com a boca fechada
como as bonecas que sabem morrer.
Debaixo das penas mora uma casa em chamas.
As paredes perguntam pelo jantar,
o espelho penteia-lhe o medo
com dedos de enfermeira cansada.
Há sempre alguém a medir-lhe a sombra.
Então cresce um centímetro -
o bastante para ouvir os sinos do leite a ferver,
o bastante para ver o pai
transformado em chuva metálica.
A altura tem cheiro a hospital.
Aprender a voar é desaprender o nome,
vestir o corpo de lâmpadas quebradas,
aceitar que a ternura
tem a língua áspera do gato
que lambe a própria ferida.
O pássaro tenta de novo.
Cai dentro da sopa do meio-dia
com as asas gordurosas do quotidiano,
e mesmo assim o céu é seu apelo
como um irmão cruel.
Talvez voar seja isto:
um erro repetido com devoção,
um casamento com o perigo
onde a noiva é um cigarro a arder.
O pássaro precisa de aprender a voar,
mas ninguém lhe diz
que o vento gosta de viúvos,
que a liberdade tem dentes de açúcar
e um avental manchado de domingo.
tem a língua áspera do gato
que lambe a própria ferida.
O pássaro tenta de novo.
Cai dentro da sopa do meio-dia
com as asas gordurosas do quotidiano,
e mesmo assim o céu é seu apelo
como um irmão cruel.
Talvez voar seja isto:
um erro repetido com devoção,
um casamento com o perigo
onde a noiva é um cigarro a arder.
O pássaro precisa de aprender a voar,
mas ninguém lhe diz
que o vento gosta de viúvos,
que a liberdade tem dentes de açúcar
e um avental manchado de domingo.
Ainda assim vai insistindo -
costura o corpo com linha de relâmpago,
engole o próprio medo como um comprimido,
e sobe, sobe,
até que o céu o trate por tu
como um pássaro teimoso no parapeito
que não pede licença para cantar.
Estou aqui, diz, com o vento dobrado no bolso,
a contar sílabas como quem alinha sementes
num prato de vidro à espera do próximo voo.