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A mostrar mensagens de março 8, 2026

aplauso

POETA, não terás o aplauso popular! O louvor do êxtase passará a ruído momentâneo; O julgamento do tolo ouvirás, e o riso da fria multidão - Permanece calmo, firme, e — sóbrio! Alexander Pushkin, Poems , 1817 O poeta caminha lentamente até a boca do cena. Na mão direita, empunha um estilete como se fosse uma arma branca pronta a atacar. E inicia o seu monólogo:  Então, esperavas o quê? Flores? O estrondo de mil mãos batendo em uníssono até que os teus ouvidos sangrassem de glória? Esquece. Não haverá o aplauso popular. Entende de uma vez: a multidão é um monstro de mil cabeças que adora ser alimentado, mas nunca se sacia de ti. O que tu chamas de louvor, de êxtase... ah, isso é somente uma nuvem de fumaça. É o ruído momentâneo de uma engrenagem que te tritura e te cospe em seguida. Escuta... consegues ouvir? É o riso deles. Esse frio que corta a pele. O julgamento do tolo é uma sentença proferida antes mesmo de o teu verso tocar o chão. Riem porque não compreendem o peso d...

os deuses

A noite ergue-se como uma lona velha  esticada sobre um mundo cansado. As estrelas torcem-se no alto, espirais  de luz numa imensa tenda que alguém  desenhou para vigiar os  que sonham. Porque ficam os deuses lá fora? Porque não atravessam a cortina como quem aceita o risco de ser apenas mais um na plateia? Será a pobreza da eternidade? Ou o truque de quem prefere observar sem pagar o preço da surpresa? Ou talvez temam  que lhes pintemos o rosto, lhes demos sapatos bicudos e gargalhadas demasiado humanas. Mas, se isso acontecesse, não era assim tão estranho -  os palhaços governaram desde sempre o circo. Então que desçam, que entrem sem pagar nem permissão. Aqui ninguém lhes pedirá contas. Só lhes pedimos uma coisa: não fiquem lá em cima a espreitar. Há números delicados em cena e os equilibristas caem  ao saber que são observados das estrelas. 

pontuação final

Para Laura Riding ​ A morte, que parece um simples verso , não exige métrica nem ensaio nem fôlego. É a gramática que se aprende sem esforço quando as mãos se cansam do mundo. ​ E, de todos os modos do saber , a única ciência que não exige estudo. Não há bibliotecas para o pó, nem teses sobre o vazio de um corpo - o exercício  de desaprender dos nomes e das cores. ​ Morto ou vivo, o mais fácil .    Viver é um ofício de esforço: o equilibrista tenso na corda do tempo, a des(re)construção diária de um rosto. A morte, que parece um simples verso é o instante em que a pontuação final se transforma em toda a frase escrita: a facilidade de ser apenas o que se é.

sabor

Para Frank O'Hara Merda na sopa, deixa-a queimar. Tudo está de volta. Nunca estarás mentalmente sóbrio. E talvez seja melhor assim. Porque a panela ferve mesmo quando ninguém está na cozinha, e o cheiro - meio carvão, meio memória - sobe pelas paredes como uma notícia que ninguém leu. Lembras-te de quando as manhãs eram apenas café e uma janela aberta? Agora há sempre qualquer coisa a arder no fundo do dia. Merda na sopa , sim - um erro, um gesto brusco, uma colher esquecida a rodar como um planeta pequeno no caldo do mundo. Tudo está de volta : a rua molhada, os nomes que disseste depressa demais, o riso de alguém numa mesa onde já não te sentas. E a cabeça, essa panela impossível, nunca desliga o lume. Nunca estarás mentalmente sóbrio . Há sempre um pensamento a fermentar, uma palavra atravessada, uma lembrança a borbulhar até saltar pela borda. Deixa a sopa queimar um pouco. Às vezes é o fundo escuro que tem realmente  sabor.

o navio de vidro

​ Para Claudia Emerson A memória é um gargalo estreito, um caminho de terra que termina  onde o sal começa. Quando era pequena , o mundo tinha  a segurança das coisas sólidas, até ao dia em que o carro parou diante do impensável. ​ Conduzimos apenas uma vez até ao oceano , uma incursão única num território  sem mapa. Imóvel no banco de trás, a criança  ​tinha medo desse tipo de água , não  a que se deixa medir por garrafas mas dessa massa azul - músculo  que se move s em intenção,  sem perdão,  ocupando o vácuo. O mar não era uma paisagem. Era uma anatomia que não conseguia nomear. ​E havia o peso desse horizonte , uma linha cortante que não prometia  nada além de si mesma. Um abismo horizontal que tentava fechar dentro do olhar como quem  tenta f orçar um navio de velas  abertas a entrar dentro                             de uma garrafa. ​O med...