a fenda do poente

Para Carmen Martín Gaite



Empurraram com pedras, sim,
mas esqueceram-se do vento.
Ergueram muros com mãos cansadas,
como quem acredita
que o hábito é uma forma de silêncio.
Queriam que aprendesse a ficar,
que o corpo se tornasse mobília,
o desejo desistisse de ter direcção.
Agora não avanço.
Nem um centímetro de rebeldia
se atreve a romper o chão.
Fico.
Mas não pertenço.
Há uma fenda - mínima, quase erro -
onde a luz insiste em não obedecer.
Não é fuga ainda, é só
um rumor de horizonte
afiando o olhar.
Pensam que me ensinaram limites.
Ensinaram-me mapas.
E é por ali, vejam bem,
onde o dia começa a morrer em ouro,
que tudo em mim se inclina.
Não caminho - ainda -
mas já me movo inteira.

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