quimeras na bagagem

Para A. S.


1. o amigo

partiste em silêncio como quem respeita 
o peso das palavras
     não houve adeus somente a ausência 
 tomando de um gole seco inteira a casa

 colecionavas quimeras não como quem 

foge,
mas como quem insiste

  guardavas sonhos em cadernos gastos
    papéis soltos menores do que silêncio
    caixas em madeira cheirando a cinzas

falavas de coisas desconhecidas

para o mundo:
      um peixe que voava reflectindo a lua
    uma estrada que levava até a infância
    um amor que não cobrava  passagem

     enquanto todos reclamavam provas -
     trabalhavas o malabarismo 

do encanto:

     curvas sem tempo pequenos gestos

  agora que partiste - repouso 

inquietas
    as quimeras presas em meus bolsos
não sei o que fazer com elas - 

algumas
   ainda serpenteiam pelas veias 

outras 
fantasiam palavras impossíveis

 quando o dia apaga
       devagar o rosto:

  nomes que não sei de onde vêm 
"não se vive apenas de verdades"
olhando o mundo com o espanto

  de quem sabe que reinventar-se
  é o maior preço para não mudar


2. a sombra

                          não partiste 
           foste antes engolido 
em mosaicos de naufrágio

   a névoa que gostavas de escrever
   como própria metáfora da escrita
     falavas de criaturas inexistentes
  com a precisão de um anatomista

 dizias - 
a realidade é uma doença
  e curavas-te com os teus delírios

colecionavas quimeras como que
 encenasses o teu próprio funeral
 meticulosamente os olhos baços
 sempre baixos - e as mãos claras
  assim me fazias sorrir enquanto 
  sabia não haver magias na mala 

vazia
    essa tua fé em impossíveis 

                 algoritmos menores
  do que o silêncio -  agora sei

  o teu quarto está como deixaste
 respira o compasso da incerteza


   as paredes transpiram devagar
          sombras esquecem-se 

no espelho:

teus passos ou
         quimeras que deixaste?

 as que não entenderam que 

morreste ou talvez
         partiste de outro modo 
      sendo por elas devorado

o teu nome a sufocar -

me a boca a certeza: - nem os
mortos de sono quieto gozam


3. a catarse

  demorei a saber que nem 
todos
    os fogos são olhos 
   de terra desvastada -
                   antes espelhos

      nada ou ninguém te engoliu
   em ti próprio tatuaste a negro
    um teatro volátil de quimeras

ou talvez algo maior aconteceu 
  que nunca soubeste a nomear

  passei por ter a alma rasgada
      depois o medo de esquecer

 o luto não gritou 
rangeu os dentes
sob a pesada leveza dos 
meus pés:
   quimeras que coleccionaste
não pedem residência -

pedem espaço

e bruscamenteabro as janelas
  aceito que a casa inspire o teu nome
  sem custo sem dor sem sobressalto

 és agora linguagem 
     que nunca soube

que o era, 
              multiplicando sílabas na terra

 e permaneço sentada dentro de mim
 ainda com um pouco de ti nos ossos

o nosso rosto maior cultivava sonora
 a luz na pele pedaços de céu negado

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