o homem real
Para Paul Auster
O espaço resume-se a isto: uma mesa, uma lâmpada, a máquina de escrever. Lá fora, o mundo é um ruído de estranhos, uma sucessão de coincidências sem nome.
Mas ao sentar-me, a geografia muda. Não há mapas para o que as teclas procuram. Cada batida é um passo num labirinto onde a saída não importa, mas a precisão do rasto. Sou o arquitecto de uma cidade de tinta, erguida no silêncio de um quarto fechado. Um homem que escreve para saber onde está, inventando o céu para não morrer sufocado pela métrica dos dias.
A liberdade não é um horizonte aberto. É o arco que vai do pensamento ao punho, a recusa de ser uma sombra no asfalto: um homem que se escreve até se tornar real.