calendários

depois de amanhã serei outro
- dizem os calendários com a boca
cheia de datas -

mas eu não quero ser outro

há uma fadiga antiga
em mudar de pele
como quem troca de camisa
para agradar ao espelho

não sei quem sou
e isso devia bastar
como um passaporte em branco
ou uma casa sem mobília
onde o eco ainda aprende o meu nome

quero ser tudo menos outro

quero ser a hesitação antes do passo
o erro que persiste
a frase interrompida por falta de ar
não por falta de sentido:

a árvore que cresce torta
porque a luz também erra
o rio não alcança o mar
e ainda inventa margens

outro é sempre a versão corrigida
a nota de rodapé passado que fui
um futuro com aspas

prefiro ficar no intervalo sem rosto
onde posso falhar com elegância
e existir sem tradução literal

depois de amanhã só depois
que o mundo mude se quiser

fico a aprender aqui
a nunca me substituir

a ser tudo como fosse
outra versão de nada 

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