país rectângulo

sou um pigmeu

              país rectângulo,

desenhado a régua cega
num teste de geografia errada
a culpa? do miúdo, claro.
ou da professora - quem sabe?
que me ensinou a ser nação


com letra minúscula
sílaba torta,
alfabeto impróprio,
versão pirateada do latim,
subtitulada em ressentimento


sou um país em nota de rodapé
vulgar nos gestos, épico
nos jantares de tascas
herdei memórias como quem herda
louça lascada 


com orgulho!
diz o povo entre duas invejas
e três novelas
sou mapa de feriados,
onde os miúdos pintam com lápis de cera
e depois atiram o desenho pela janela


quando chega o teste de matemática
tenho hinos que ninguém sabe de cor,
e estátuas que ninguém visita

sou gloriosamente pequeno,
especialista em saudade e medalha
de ouro no campeonato europeu,
profissional de desculpas históricas
mas ainda assim,
com um peito inchado


e mesmo com ar reciclado,
digo:
Aqui ninguém manda!
senão Bruxelas, o FMI & os mercados

com fatos por medida & promessas
por atacado,
a vender o futuro em parcelas
com TAEG variável & patriotismo 
governam com gravata


a memória seleta
jurando inovação
os cabos da net presos a fax modem

debates em horário nobre,
coreografias de bailados coxos:
uns dançam à direita,
outros dançam à esquerda,


mas, no final, todos caem
na mesma almofada de subsídios
reformam-se cedo
de tanto trabalhar
a imagem &


nós a bater punhetas
com dedos cortados pelo IRS
de quatro em quatro anos,
colocamos a cruz no boletim


como quem joga no euromilhões
sabendo que o prémio
vai sempre para os mesmos
& o povo 

esse poema inacabado
de cafés & queixas,
aguarda o milagre


da próxima rotunda inaugurada
com fitas, fanfarras, arruadas

& autógrafos na tv & nos jornais
que fecham em cascata a porta
por falta de paciência dos leitores

& múltiplas lavagens cerebrais
& o silêncio gritante da realidade

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