Homem-Megera
(luz baixa. cadeira no centro. um homem entra, senta-se devagar. respira. olha para o público.)
Sabem o que é ser bicho com cara de homem?
Não?
Pois eu sei.
Chamam-me megera,
mas só porque mordo antes de ser mordido.
Porque não peço desculpa por existir.
Ou porque existo de um modo que incomoda.
Muito.
(pausa. levanta-se, anda em círculos.)
Fui aprendendo, sabem?
Com os anos.
Com os gritos.
Com os silêncios.
Aprendi que mostrar sentimento
é convite ao tiro.
Que chorar
é abrir ferida numa sala cheia de predadores.
Que amar…
amar é um jogo com regra escondida.
E perdi cedo.
Muito cedo.
(olha para o chão. depois ergue a cabeça. fala com dureza.)
Então vesti espinhos.
Armei os olhos.
Endureci as mãos.
Fiz da voz um casaco grosso.
Agora dizem:
Tu és bruto.
Tu és frio.
Tu és o problema.
Mas não estavam lá, pois não?
Quando me ensinaram que um homem não treme.
Um homem não quebra.
Um homem engole.
Um homem cala.
Um homem manda.
E se não mandar, que morra tentando.
(bate no peito, uma vez, secamente.)
Querem saber quem é o Homem-Megera?
Sou eu.
Sou o resultado.
O produto final de gerações inteiras
a dizerem engole tudo.
agora não é altura.
os homens não choram.
Eu, choro, sim.
Mas por dentro.
E arde.
Arde tanto
que o sorriso é torto
e o amor, azedo.
(fica em silêncio. anda. volta a sentar-se. mais calmo.)
Às vezes penso…
e se tivesse sido outra coisa?
Se tivesse sido leve?
Manso?
Gentil sem ser engolido?
Se tivesse aprendido a abraçar
sem me defender primeiro?
(olha para o público.)
Mas isso seria outro mundo.
Outra pele.
Outra história.
Aqui,
sou o Homem-Megera.
Mastigo ferro.
Durmo de olhos abertos.
Levanto-me antes do medo.
E sobrevivo,
todos os dias,
com o que sobrou.
(pausa. longa. suspira.)
E vocês?
O que é que vestem para não doer?
(a luz apaga-se.)