fuzilamentos
Os Fuzilamentos de Goya
(com lanternas na garganta da noite)
A colina respira pólvora.
Madrid inclina-se para ouvir
o estalo breve do mundo a quebrar.
Há um sino que não toca,
há um relógio sem números
- o tempo aprende ajoelhado.
Alinham-se como frases interrompidas,
homens com nomes guardados no bolso,
cartas que nunca foram abertas,
um pão que ainda morna na memória.
A noite passa-lhes a mão pelo ombro
e diz: esquece.
Ao centro, a lanterna.
Não é luz, é um interrogatório.
Ilumina a camisa branca
como quem sublinha um erro fatal
no manuscrito da história.
Braços abertos:
não é prece,
é espanto que encontrou lugar.
O pelotão é um plural sem rosto.
Botas conjugam o verbo obedecer.
Os olhos não aprendem a ver;
aprendem a apagar a visão.
é espanto que encontrou lugar.
O pelotão é um plural sem rosto.
Botas conjugam o verbo obedecer.
Os olhos não aprendem a ver;
aprendem a apagar a visão.
Há uma geometria fria
que mede a distância
entre o coração
e chama a isso ordem.
e chama a isso ordem.
No chão,
o sangue ensaia uma nova caligrafia,
vermelho que tenta dizer nós
antes de se tornar silêncio.
Um cão distante ladra a palavra amanhã
e ninguém sabe porque não responde.
Penso nessas cidades que virão,
nas luzes elétricas, nos jornais,
nos museus onde a dor terá moldura
e as crianças perguntarão porquê
como quem pergunta que horas são.
Penso na arte como um nervo exposto
que não consola, desperta.
Goya pinta com o que sobra da noite,
com o resto de um grito que não cabe no ar.
Cada rosto é um espelho rachado:
olhamos e não somos vistos.
A história, essa senhora cansada,
volta a carregar a espingarda
sempre que esquecemos lembrar.
E no fim,
quando o disparo acaba de escrever-se,
fica a lanterna acesa -
não para iluminar o passado,
mas para vigiar o futuro
como quem diz, em voz baixa:
nunca mais.