946 Poesia
Entre Marte e Júpiter
há uma sílaba de pedra
a repetir o seu nome
em silêncio orbital.
a repetir o seu nome
em silêncio orbital.
Não cai.
Não foge.
Demora.
Quarenta quilómetros de metáfora
a girar devagar -
tão devagar
que o tempo precisa de se sentar
para o ver passar.
Descoberto por um homem
que olhava o céu
como quem procura rimas perdidas,
o asteroide aceitou seu nome,
sem protestar.
A sua órbita é elíptica
- como o pensamento humano -
aproxima-se, afasta-se,
regressa sem nunca ser igual.
Inclina-se apenas um grau
e qualquer coisa,
porque até os asteroides
sabem que o excesso
estraga o verso.
Roda em cento e oito horas,
uma rotação lenta
como o poema que não quer acabar
antes de ser maior que um nome.
Não tem voz,
escreve com gravidade.
Não tem mãos,
segura o Sol
à distância exacta do sentido.
Enquanto a Terra se apressa,
a poesia insiste:
há beleza no intervalo,
há arte na repetição,
há futuro em quem demora.
E assim segue,
entre destroços e estrelas,
lembrando -
com humor mineral e paciência cósmica -
o universo também escreve
em verso livre.