absurdo
Um palco quase vazio. No centro, uma cadeira transparente. À direita, uma montanha feita de tecido leve. À esquerda, um mapa em branco suspenso no ar. No fundo, uma parede com uma pequena racha luminosa. Silêncio. Um silêncio que parece ter demasiado ensaiado para estar ali.
(Entra Ícaro, com cuidado, como quem pisa a luz.)
ÍCARO
Alguém viu o sol? Emprestei-lhe as asas e ainda não as devolveu.
(A montanha suspira. Surge Atlas, quase invisível.)
ATLAS
Não há sol. Há apenas uma ideia quente a fingir-se de astro.
ÍCARO
Isso explica a transparência excessiva do dia. Sinto-me mal fundido.
(O mapa treme. Entra Astreu, segurando uma folha em branco que vibra.)
ASTREU
Peço silêncio! O nada acaba de mudar de direção.
ÍCARO
Outra vez?
ASTREU
Sim. Agora sopra para dentro.
ATLAS
Impossível. O dentro é uma invenção do lado de fora.
(De uma pequena fenda, um fio de luz pulsa. Surge Urânia, observando a parede.)
URÂNIA
Discutem superfícies e ignoram a fractura. Escutem - o universo está a cometer um erro minúsculo.
(Todos param. Escutam.)
ÍCARO
Não ouço nada.
URÂNIA
Exacto.
(Pausa longa. A cadeira transparente cai sem ruído.)
ATLAS
Quem a sustentava?
ASTREU
Eu não a desenhei.
ÍCARO
Eu não lhe toquei.
Então existe.
ÍCARO
Proponho que voemos.
ATLAS
Proponho que nos dissolvamos.
ASTREU
Proponho que recalibremos o horizonte.
URÂNIA
Proponho que ampliemos a fenda.
(Silêncio. Depois falam todos ao mesmo tempo, as frases desencontradas.)
ÍCARO
Se eu subir...
ATLAS
Se eu me dispersar...
ASTREU
Se o vento...
URÂNIA
Se a fissura...
(Param. Olham-se.)
ATLAS
Talvez sejamos o mesmo erro.
ÍCARO
Ou o mesmo ensaio mal iluminado.
ASTREU
Ou o rascunho de um mapa que nos desenha.
URÂNIA
Ou quatro maneiras de escutar a mesma ausência.
(A montanha começa a flutuar. O mapa dobra-se sozinho. A fenda alarga um milímetro.)
ÍCARO
Sinto calor.
ATLAS
Sinto evaporação.
ASTREU
Sinto deslocamento.
URÂNIA
Sinto abertura.
PTOLOMEU
E se formos um só nome mal dividido?
ATLAS
Isso implicaria fronteiras imaginárias.
ÍCARO
Adoro fronteiras. São excelentes trampolins.
URÂNIA
As fronteiras racham. Eu verifico.
(Luz intermitente.)
ÍCARO
Quem nos escreveu?
ATLAS
Talvez ninguém.
ASTREU
Talvez o vento.
URÂNIA
Talvez a falha na parede.
(Silêncio absurdo. Um aplauso isolado ecoa, mas não há plateia.)
ÍCARO
Caímos?
ATLAS
Dissolvemo-nos?
ASTREU
Mudámos de rota?
COPÉRNICO
Abrimo-nos?
(A fenda transforma-se numa porta mínima. Todos se aproximam. Param. Ninguém entra.)
ATLAS
Talvez já estejamos do outro lado.
ÍCARO
Sem ter saltado?
ASTREU
Sem ter traçado?
URÂNIA
Sem ter quebrado?
(Escuridão súbita. Uma voz indistinta que pode ser de todos murmura)
VOZ
Não existimos. Ensaiamo-nos.
(Silêncio. O silêncio ensaia aplausos.)